terça-feira, 6 de setembro de 2011

Projeto ADAPTA - Aquecimento global, a Amazônia em 2100


Projeto simula clima de 2100 para estudar impacto nos seres da Amazônia

ADAPTA quer ver como peixes, insetos e plantas se adaptarão ao clima do final do século 

Muito se fala sobre o aquecimento global, mas como ele irá realmente afetar a vida de todos os organismos da Terra? Estudar todos os seres vivos de uma vez é impossível. Mas saber o que irá ocorrer com algumas espécies aquáticas da Amazônia já é um grande passo. É isso que propõe o projeto ADAPTA, que está sendo realizado pelo INPA (Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas) em Manaus. 

O ADAPTA é um projeto abrangente, uma de suas frentes de pesquisas mais interessantes são os microcosmos. Trata-se de um ambiente no qual os pesquisadores irão controlar temperatura, nível de gás carbônico e umidade. O objetivo é simular o clima da Amazônia no ano de 2100, segundo previsões do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). Nos microcosmos serão colocados peixes, plantas, insetos e microrganismos que vivem nas águas da Amazônia. 

A previsão é que em 15 dias o experimento comece para valer. O processo de análise da reação desses organismos ao novo clima vai durar um ano. Para saber mais sobre o projeto, conversamos com o Dr. Adalberto Vaz, um dos responsáveis pela experiência única realizada em Manaus.


Dr. Adalberto VAz em um dos microcosmos, mexendo nos tanques com os peixes que serão estudados// Crédito: Eduardo Gomes/Divulgação

Qual o objetivo do projeto? 
O projeto se propõe a responder duas perguntas fundamentais. Como é que diferentes espécies de plantas, peixes, insetos e microorganismos aquáticos respondem a um mesmo desafio ambiental? Como é que uma espécie responde a diferentes desafios ambientais? O que nós queremos é aprender com as respostas biológicas que esses organismos dão a esses desafios. Um deles é a questão climática. Para isso, construímos aqui no INPA quatro salas, que denominamos microcosmos, onde estamos reproduzindo as condições climáticas de 2100, segundo o IPCC, no que se refere às concentrações de CO2, temperatura e umidade. Vamos encubar algumas espécies selecionadas para viverem lá por um ano, e vamos acompanhar as mudanças biológicas e moleculares. 

A experiência começou? 
As espécies não estão encubadas ainda, tivemos um contratempo com um microcosmo e tivemos que importar um equipamento para manter mais constante o nível de CO2. Estamos com 15 dias de testes e, acho que, em mais 15, vamos começar a experiência. 

Um dos objetivos é saber quais espécies vão se adaptar e quais não vão e assim precisarão da ajuda do homem? E daí agir para começar essa preservação? 
É um dos caminhos, mas o que queremos é chegar a essas respostas. Com elas nas mãos, vamos entregar as autoridades responsáveis pela preservação e elas poderão agir. Estamos interessados em responder, o que irá acontecer com as espécies de peixes usados na alimentação humana. Elas vão crescer mais ou menos? Isso mexe com processo de produção de proteína? Queremos saber o que vai acontecer com as populações de insetos que transmitem doenças. Microorganismos importantes para a indústria vão continuar com a mesma rota metabólica? 

E quais vocês esperam que sejam os efeitos das mudanças climáticas nesses organismos? 
Queremos saber como a expressão gênica será regulada nesses cenários. Não há tempo para mudanças genéticas profundas nesses organismos, mas haveria tempo para mudanças na expressão dos genes desses seres. 

O que é regulação gênica? 
Regulação gênica é aquilo que no fundo nos torna singulares. Nós somos possuidores das mesmas informações genéticas. No entanto, quando eu estou correndo, tenho que fazer uma regulação dos genes que controlam o consumo de oxigênio e a produção de ácido lático. É bom dizer que mesmo se você correr a vida toda, essas características não vão passar para o seu filho. Para isso seria necessário uma mudança na informação gênica. E não se trata de mudança, mas de uma adaptação àquilo que você já tem. Nesse processo, alguns organismos vão morrer, porque não conseguem se regular para as novas condições. 

O projeto vai além das experiências nos microcosmos? 
Temos vários estudos. Temos um sobre a expressão do ômega 3 nos peixes da amazônica. Estamos estudando os processos de adaptação dos peixes de água doce às mudanças ambientais de maneira geral. O que nós aprendemos ao longo de 20 anos de pesquisas, é que há uma quantidade grande de espécies que desenvolveram adaptações interessantes para mudanças ambientais. Um exemplo são os organismos que ajustam sua respiração conforme a disponibilidade de oxigênio. Essa disponibilidade pode estar relacionada à variações naturais ou a ações do homem. Sabemos também que algumas espécies são capazes de reduzir os efeitos dos ambientes ácidos, como os peixes do Rio Negro, que é muito ácido. Também percebemos que algumas espécies podem reduzir os efeitos da poluição sobre sua fisiologia. 

Qual foi a inspiração inicial para começar esse projeto? 
Quando fizemos um estudo sobre o que aconteceu no passado com essas espécies, notamos que várias delas já tinham sido submetidas a ações ambientais muitos fortes. Você pega a grande maioria dos nossos peixes, eles surgiram em momentos em que a Terra tinha altas tensões de dióxido de carbono na atmosfera, baixa disponibilidade de oxigênio e altas temperaturas. Foi um passo para chegar a esse trabalho que estamos desenvolvendo no âmbito do ADAPTA.

por Fernando Martines - Galileu

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