quinta-feira, 18 de agosto de 2011

FAS e Google iniciam treinamento de comunidade para Projeto de Fotografia no Tumbira


Em parceria com a FAS (Fundação Amazonas Sustentável) e Governo do Estado do Amazonas Google usa a tecnologia do Street View para oferecer ao mundo uma vivência nas comunidades do Rio Negro, na Floresta Amazônica

Com objetivo de permitir o aceso a imagens do interior da floresta e de aspectos das comunidades ribeirinhas de forma livre e gratuita na internet e com isso estimular o interesse pelas atividades de conservação e desenvolvimento das comunidades que vivem nas unidades de conservação do Estado do Amazonas, o Google iniciou hoje o treinamento das comunidades e técnicos no uso do equipamento de captação de imagens na comunidade do Tumbira na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Negro.

Esta etapa do projeto foi precedida de uma oficina no dia 31 de julho que contou com a participaçao de 11 líderes das comunidades de Terra Preta, Inglês, Saracá, Igarapé-Açu, Acajatuba e Tumbira. Na ocasião, foram explicados os objetivos da atividade. Ficou acordado que os líderes eram os responsáveis por multiplicar, em suas comunidades, os objetivos do projeto. Foi salientado que o projeto não visa lucro e que todas as imagens serão disponibilizadas de forma gratuita na internet.

“O resultado esperado é o aumento da visitação on line aos sites das instituições envolvidas no projeto, assim como os de outras instituições ligadas ao desenvolvimento sustentável na Amazônia”, revela Virgílio Viana, superintendente geral da FAS. Outras instituições poderão utilizar a mesma ferramenta e metodologia desenvolvida por este projeto.

Além das filmagens nesta primeira etapa, a serem realizadas na RDS do Rio Negro na Comunidade do Tumbira, a partir de amanhã, dia 18/8, outras áreas serão também contempladas.

Como é praxe do Google, não serão captadas e nem veiculadas imagens de rostos de pessoas. O projeto ainda se encontra em fase de treinamento de equipe e depois será feita a captação de imagens na comunidade. Todas as eventuais filmagens ou fotos de pessoas ou residencias para entrevistas ou para o projeto serão precedidas de uma autorizacão específica.

Comunidade Tumbira, no Rio Negro

Fonte: Fundação Amazonas Sustentável

Google vai levar o Street View para a Amazônia



Gigante de buscas anunciou parceria com ONG brasileira para capturar imagens dos Rios Negros e Amazonas e até de comunidades da região. O Street View é uma ferramenta do Google que permite explorar lugares por meio de imagens em 360 graus no nível do solo.

Em breve você poderá conhecer a floresta amazônica sem gastar nada e no conforto da sua casa. A Google anunciou na quarta-feira (17/8) que está trabalhando para levar sua ferramenta Street View de visualização online para a Amazônia.

Em seu blog oficial, a gigante de buscas afirma que “em breve você poderá navegar pelos rios Amazonas e Negro no Norte do Brasil e conhecer algumas das áreas mais remotas e de maior biodiversidade do mundo.”

De acordo com a empresa, alguns membros da sua equipe do Brasil e dos EUA já estão na floresta amazônica para capturar imagens do rio e das comunidades e florestas no entorno. A ação está sendo feita em parceria com a organização sem fins lucrativos Fundação Amazônia Sustentável (FAS).

Cinco comunidades da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Negro, entre os municípios de Iranduba e Novo Airão, a 180 quilômetros de Manaus, vão poder ser vistas até o fim do ano de qualquer lugar do mundo pelo Google Street View, segundo o governo do Amazonas. Hoje, a equipe do Google estará na reserva para gravar as imagens.


Na primeira fase do projeto, tem duração prevista de três semanas, as equipes da Google e da FAS captarão imagens de um setor de 50 km de extensão do Rio Negro, indo até a comunidade Terra Preta. Para isso, serão usados os trikes (triciclos de câmeras do Street View) acoplados em barcos, que também poderão ser usados por moradores locais. Depois, a gigante de buscas vai processar as imagens, como de costume, transformando as fotografias em panorâmicas de 360 graus.

A Google termina o post dizendo estar “honrada” em trabalhar nesse projeto com a FAS e em ajudar seus parceiros “a compartilhar com o mundo as histórias únicas de seus moradores e a beleza desse local que eles chamam de lar”.

Até o fechamento desta reportagem, a assessoria local da Google não havia respondido aos nossos questionamento sobre quando as imagens da Amazônia estarão disponíveis no Street View.

O Google Street View foi lançado oficialmente no Brasil em setembro de 2010, com cobertura de 51 cidades brasileiras, como São Paulo, Rio de Janeiro e municípios históricos de Minas Gerais. Foram 150 mil quilômetros percorridos em um ano e milhões de fotos processadas para reproduzir virtualmente os municípios, que podem ajudar os internautas a conhecer rotas, encontrar lojas e bares ou simplesmente fazer turismo com mouse e teclado.


Em breve você poderá conhecer a Amazônia pelo seu computador, smartphone ou tablet
Do lado polêmico, porém, estão dezenas de pessoas que já processaram o Google em outros países por causa do serviço, alegando invasão de privacidade. Autoridades inglesas, por exemplo, obrigaram o Google a retirar a visualização das construções militares da ferramenta.


Fontes:
IDG Now!
Exame.com

Conheça as matérias e os vencedores da 11ª edição do Prêmio de Reportagem sobre a Biodiversidade da Mata Atlântica



Na noite do dia 10/08, a Aliança para a Conservação da Mata Atlântica, uma parceria entre as ONGs Conservação Internacional (CI) e Fundação SOS Mata Atlântica, realizou em São Paulo, a cerimônia de entrega do Prêmio de Reportagem sobre a Mata Atlântica 2011. Com o objetivo de promover o jornalismo ambiental no Brasil, fomentar a produção de reportagens sobre a Mata Atlântica e reconhecer a excelência profissional de jornalistas que cobrem temas ambientais, a iniciativa existe no Brasil desde o ano 2001 e conta com o patrocínio de Bradesco Capitalização, apoio do Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ) e da Federação Internacional de Jornalistas Ambientais (IFEJ). 

Além das tradicionais categorias Impresso e Televisão, em 2011 o prêmio ganhou uma nova categoria destinada a reportagens de Internet. Os vencedores das três categorias participarão de uma viagem a Washington, DC, focada em jornalismo e meio ambiente com visitas a ONGs internacionais e encontros com jornalistas de grandes meios de comunicação. A premiação inclui passagem aérea de ida e volta, em classe turítisca, da cidade de residência do ganhador até a cidade do evento, além de hospedagem e refeições. Os segundos e terceiros colocados em cada categoria receberão R$ 5.000 e R$ 2.500, respectivamente, além de troféu e certificado. 
Para Marcele Bastos, coordenadora de comunicação da CI-Brasil, a diversidade das matérias vencedoras mostra que o tema meio ambiente é fundamental, pois permeia cada vez mais o cotidiano das pessoas e as reportagens permitem que a sociedade tome consciência e se mobilize acerca dos problemas do planeta. "Além disso, a cada ano percebemos que o esforço do nosso trabalho é retribuído pela satisfação dos contemplados na premiação".

A diretora de comunicação da SOS Mata Atlântica, Ana Ligia Scachetti, comenta o sucesso da iniciativa. "Conseguimos reunir oito dos nove finalistas, jurados e vários outros jornalistas que participaram do Prêmio e compareceram para prestigiar os colegas. Esta é uma grande festa do jornalismo ambiental e é recompensador poder realizá-la anualmente". 

Brasil TV 2011

1º lugar
Litoral Norte - Encostas

 Claudia Tavares Jornal da Cultura e Repórter Eco

A matéria integra uma série exibida no Jornal da Cultura sobre a ocupação do Litoral Norte de São Paulo. Mostra o risco de ocupação das encostas diante das características geológicas da Serra do Mar. Relembra a tragédia que arrasou a cidade de Caraguatatuba em 1967.

2º lugar
Árvores da Mata Atlântica

 Simone Pio Viana Rede Minas Televisão. Belo Horizonte - MG 

Quando uma árvore cai ou é derrubada, leva junto com ela varias outras vidas. Espécies menores e ainda animais que dependem dela para se alimentar ou se abrigar. O Planeta Minas Meio Ambiente percorreu mais de 6 mil quilômetros em busca das árvores sobreviventes do bioma mais ameaçado do Brasil. O programa encontrou espécies únicas como um jequitibá milenar em Santa Rita do Passa Quaro, São Paulo, e o Pequi Izaias que só se tem registro no Espírito Santo. Também dá um alerta; uma pesquisa revela que 59% das espécies de árvores da Mata Atlântica são raras. Quanto foi perdido sem sequer ser estudado? Muito, estimam pesquisadores. Uma prova viva é a Pindaíba Preta, espécie nova e ainda desconhecida na literatura científica. No pouco que resta do bioma, a reportagem mostra iniciativas que são um alento. Como o maior viveiro de mudas nativas da Mata Atlântica e a reserva que concentra a maior biodiversidade de espécies de árvores do bioma no planeta.

3º lugar

Carvão do Piauí

  José Raimundo Carneiro de Oliveira, Jornal da Globo/Rede Globo.

A reportagem mostra a produção de carvão no sul do Piauí para alimentar fornos das siderúrgicas de Minas Gerais . Os autores do trabalho percorreram mais de 5.000 km para denunciar um crime ambiental que definha as matas nativas do nordeste numa região que curiosamente concentra 3 Biomas: Mata Atlântica, Caatinga e Cerrado, tudo está virando carvão. A matéria mostra também iniciativas de empresas que estão dando o bom exemplo de plantar florestas para alimentar com carvão as siderúrgicas.


Brasil Internet 2011

1º lugar
Projeto de biólogo mostra degradação do meio ambiente no Rio

 Jornalista: Bernardo Tabak

"Mário Moscatelli faz fotos aéreas das áreas verdes há 14 anos."
Em 1997, o biólogo Mário Moscatelli, então com 32 anos, resolveu empreender um projeto de monitoração de áreas verdes na Região Metropolitana e no Litoral Sul do estado do Rio de Janeiro. O objetivo do Projeto Olho Verde era fazer sobrevoos para tirar fotos aéreas, de modo a acompanhar a degradação de matas, encostas, mangues, rios, lagoas e baías. Para a desolação do biólogo, desde o começo as imagens não eram nada animadoras. "Não tem foto bonita desde o primeiro voo. Entra ano, sai ano, só vejo degradação", afirma.

2º lugar
Ambientalista trabalha para recompor a orla da Represa de Guarapiranga

  Jornalista Thaís Teisen Ciclo Vivo 

Durante as atividades educacionais, as crianças aprendem muito mais do que saber distinguir as espécies, elas podem perceber a importância de cada uma delas para a manutenção da biodiversidade local. 

3º lugar
Barragem do Valo Grande

Daniel Mello Repórter da Agência Brasil

Iguape (SP) – A última etapa da Barragem do Valo Grande, em São Paulo, deve começar no segundo semestre deste ano, segundo previsão do Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee) do governo de São Paulo. Para a conclusão das obras, com a instalação das comportas, devem ser feitos estudos de topografia, qualidade da água e avaliação ambiental da região. O custo estimado para essa fase da obra é de R$ 37, 6 milhões.

Segundo o Daee, até agora foram concluídos 58% da restauração das estruturas da barragem, erguida na década de 90. A previsão é que os trabalhos iniciados há cerca de oito meses e que custaram R$ 8,6 milhões sejam encerrados em abril.

Sobre a avaliação dos impactos ambientais e sociais da obra, o órgão respondeu que a represa pretende reduzir os efeitos das inundações nas várzeas do Rio Ribeira de Iguape. “ E, ao mesmo tempo, visa à preservação ambiental da Região Estuarino-Lagunar do Mar Pequeno, à jusante da obra, com benefícios socioeconômico e ambientais aos territórios abrangidos pelos municípios de Iguape, Ilha Comprida e Cananeia”.

Brasil Impresso 2011

Revista Unesp Ciência ganha o Prêmio de Reportagem sobre a Mata Atlântica na categoria Impresso. 



A matéria "O Código Florestal ao arrepio da ciência", escrita pelas jornalistas Giovana Girardi e Andreia Fanzeres e publicada em outubro de 2010 na revista Unesp Ciência, é a vencedora da 11ª edição do Prêmio de Reportagem sobre a Mata Atlântica

A iniciativa promove o jornalismo ambiental no Brasil, fomenta a produção de reportagens sobre a Mata Atlântica e reconhece a excelência profissional de jornalistas que cobrem temas ambientais.
Sem discussão

A reportagem da Unesp Ciência ouviu especialistas de várias áreas para entender como as mudanças no Código Florestal – que dispõe sobre matas ciliares, topos de morro e trechos de propriedades privadas que não podem ser desmatados – podem ter impacto negativo nos recursos hídricos, na biodiversidade e na própria agricultura.

Algumas dessas fontes reconheceram que grande parte da comunidade científica não se organizou para discutir nem para atender às demandas legislativas. "Acredito que o maior mérito da matéria é ter reunido, pela primeira vez, uma série de estudos que mostram os possíveis riscos da mudança do código florestal tanto à biodiversidade quanto aos serviços florestais e, em última instância, aos seres humanos", diz Giovana Girardi, que também é diretora de redação da revista.

Ela explica que a comunidade científica vinha reclamando de que não havia sido ouvida pelo deputado Aldo Rebelo (PCdoB) e que as alterações propostas por ele não tinham base em pesquisas. "A SBPC e outros grupos de pesquisadores já tinham se manifestando por meio de cartas em revistas científicas e pela imprensa, mas eles mesmos ainda não haviam organizado um dossiê ou algo do gênero que mostrasse o tamanho do problema. Correndo atrás de especialistas das mais diversas áreas, a reportagem de certo modo ajudou a compor melhor esse quadro para o leitor, ao mesmo tempo em que deixou claro que, de fato, o projeto, como está, não é capaz de responder às previsões de danos."

Para Giovana, o prêmio vem em uma boa hora porque o novo código continua em discussão. O projeto foi aprovado na Câmara no final de maio, mas ainda será votado no Senado, e todas as questões levantadas pela revista continuam abertas. "Também é significativo que as taxas de desmatamento da Amazônia voltaram a subir muito neste ano depois de experimentarem em 2010 a menor taxa desde 1988, quando o dado começou a ser medido pelo Inpe. Os especialistas creditam isso justamente à discussão de mudança do código e à crença dos desmatadores em uma eventual anistia", acrescenta.

2º lugar
Marionetes de oito patas

 Maria Guimarães Revista FAPESP - São Paulo



Em busca de teias com duas a três centenas de aranhas de uma espécie que vive em colônias, os biólogos Marcelo Gonzaga e Jober Sobczak encontraram algo ainda mais surpreendente: uma vespa pousada numa teia sem aranha à vista. Um excursionista desavisado provavelmente passaria sem dar atenção à cena, mas Gonzaga rapidamente armou a câmera fotográfica. O instinto estava certo: logo em seguida, uma mosca foi capturada pela teia, a aranha saiu da folha enrolada que lhe servia de abrigo e, antes que alcançasse a refeição do dia, foi atacada. A vespa agarrou a aranha e inseriu o ovipositor na boca da dona da teia, liberando uma substância paralisante por tempo suficiente para que pudesse grudar um ovo na parte posterior do abdômen da vítima. O pesquisador não tirou o dedo do obturador da câmera e documentou tudo. “Foi muita sorte, não imaginávamos encontrar isso”, conta Gonzaga, professor na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em Minas Gerais, e membro do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia dos Hymenoptera Parasitoides da Região Sudeste Brasileira.

3º lugar
O recobrimento do Brasil

 Sérgio Adeodato Terra da Gente - Campinas  

Na Terra do Descobrimento a restauração da Mata Atlântica muda velhos hábitos e traz de volta ao sul da Bahia espécies da fauna em perigo de extinção.

Procura-se um novo lar na natureza para os micos-leões-de-cara-dourada que habitam a Serra da Tiririca, nas proximidades de Niterói (RJ). Originários de uma região de Mata Atlântica bem longe dali, na Bahia, eles chegaram à floresta fluminense anos atrás pelas mãos de traficantes. Reproduziram-se e agora, na competição por espaço e alimento, ameaçam a população nativa de outra espécie de primata - o mico-leão-dourado, em perigo de extinção, protegido ali perto na Reserva Biológica de Poço das Antas. A questão é delicada. Deslocar os micos "invasores" exige uma logística complexa. São 120 indivíduos, divididos em 15 grupos no habitat. O desafio é encontrar um fragmento de mata na região original da espécie, em ótimo estado de conservação, onde possa conviver em harmonia com outros animais, tanto sob o ponto de vista genético como de comportamento. "E tudo isso sem qualquer risco de desmatamento ou caça", afirma Leandro Jerusalinsk, do Centro Nacional de Primatas, coordenador dos estudos prévios que envolvem diferentes instituições e cientistas do País e do exterior para o planejamento da arriscada operação.

Sobre a Aliança para a Conservação da Mata Atlântica

Parceria entre a Conservação Internacional e a Fundação SOS Mata Atlântica, a Aliança para a Conservação da Mata Atlântica foi criada em 1999 para ampliar a escala de atuação das duas organizações, a partir de uma estratégia comum, em favor da conservação da Mata Atlântica. Com a proposta de diminuir o processo de destruição de um dos biomas mais ameaçados do planeta, a união entre as instituições está fundamentada em duas linhas estratégicas: Áreas Protegidas e Comunicação para conservação. Dentre os principais projetos conduzidos pela Aliança estão o Prêmio de Reportagem sobre a Mata Atlântica e o Programa de Incentivo às Unidades de Conservação Públicas e Privadas da Mata Atlântica. Para conhecer mais sobre a Aliança, visite www.aliancamataatlantica.org.br.

Marionetes de oito patas, vespas manipulam o comportamento de aranhas



11ª Edição do Prêmio de Reportagem sobre "A BIODIVERSIDADE DA MATA ATLÂNTICA"

 
Maria Guimarães - Revista FAPESP - São Paulo
2º lugar 



Marionetes de oito patas
Larvas de vespas manipulam o comportamento de aranhas

Em busca de teias com duas a três centenas de aranhas de uma espécie que vive em colônias, os biólogos Marcelo Gonzaga e Jober Sobczak encontraram algo ainda mais surpreendente: uma vespa pousada numa teia sem aranha à vista. Um excursionista desavisado provavelmente passaria sem dar atenção à cena, mas Gonzaga rapidamente armou a câmera fotográfica. O instinto estava certo: logo em seguida, uma mosca foi capturada pela teia, a aranha saiu da folha enrolada que lhe servia de abrigo e, antes que alcançasse a refeição do dia, foi atacada. A vespa agarrou a aranha e inseriu o ovipositor na boca da dona da teia, liberando uma substância paralisante por tempo suficiente para que pudesse grudar um ovo na parte posterior do abdômen da vítima. O pesquisador não tirou o dedo do obturador da câmera e documentou tudo. “Foi muita sorte, não imaginávamos encontrar isso”, conta Gonzaga, professor na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em Minas Gerais, e membro do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia dos Hymenoptera Parasitoides da Região Sudeste Brasileira.

O encontro fortuito na serra do Japi, uma reserva de mata atlântica em Jundiaí, interior de São Paulo, aconteceu em 2007 e deu origem à primeira descrição de parasitismo de uma aranha (Araneus omnicolor) por uma vespa (Hymenoepimecis veranae) no país. Um caso similar fora relatado sete anos antes por William Eberhard, da Universidade da Costa Rica. De lá para cá Gonzaga manteve contato com o colega da América Central e descreveu o comportamento parasitoide, interação em que o hospedeiro sempre é morto pelo parasita, de mais seis espécies de vespas, duas delas até então desconhecidas pela ciência.

O que descreveram Gonzaga e Sobczak – aluno de doutorado de Angélica Penteado Dias, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), co-orientado por Gonzaga – é um procedimento complexo que envolve manipulação do hospedeiro pela vespa. Depois de paralisar a aranha (o veneno atinge o sistema nervoso central pelo gânglio subesofágico), a vespa inspeciona o abdômen da vítima e, se necessário, mata e remove alguma larva competidora. Na sequência, deposita ali um ovo de onde sai uma larva que adere ao corpo da aranha, faz furos em seu abdômen e se alimenta de hemolinfa, fluido correspondente ao sangue.

Duas semanas depois, na hora de a larva formar o casulo em que se tornará uma vespa adulta, a aranha subitamente altera a estrutura de sua teia. Ela praticamente deixa de produzir a espiral de fios viscosos que capturam as presas e monta uma estrutura mais simples e resistente – em alguns casos, cria até uma barreira de seda protegendo o casulo. A larva então se prende aos fios da teia com estruturas em forma de gancho que surgem em sua carapaça na última muda, mata a aranha e forma seu casulo (ver vídeo no site Pesquisa FAPESP).

Em 40% das 85 teias examinadas em trabalho publicado em 2007 na Naturwissenschaften, a dupla de biólogos encontrou fêmeas maduras de aranhas com parasitoides ou já só o casulo preso à teia. É uma proporção alta, até porque as vespas não atacam qualquer aranha. Gonzaga e Sobczak não encontraram machos parasitados, mas é cedo para dizer se eles não são vítimas por serem menores ou se não estavam à disposição dos pesquisadores na época do ano em que foi feito o levantamento, entre março e abril. Gonzaga explica que as fêmeas muito grandes têm mais capacidade de lutar e virar o jogo, transformando a vespa em almoço. “Nunca encontramos fêmeas grandes parasitadas”, conta. Já as aranhas pequenas parecem não ser um bom alvo por não terem tamanho suficiente para sustentar o desenvolvimento de uma larva de vespa. Além disso, as habitantes imaturas de teias ainda têm de passar por mudas (troca do esqueleto, que é externo) até chegar ao tamanho de um adulto, o que deixaria a larva presa a uma casca seca e oca nada nutritiva. Para sobreviver, as vespas precisam escolher bem.

Encontrar novos casos de vespas parasitoides e descrever a interação entre elas e os hospedeiros foi só o primeiro passo da pesquisa. Até agora, as espécies identificadas no Brasil foram achadas na mata atlântica, em São Paulo e no Espírito Santo. No entanto, isso não significa que vespas parasitoides de aranhas sejam exclusivas desse ecossistema. A restrição geográfica é determinada pela região onde Gonzaga fez seus levantamentos – ele trabalhou na mata atlântica durante o pós-doutorado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e no período no qual foi pesquisador na UFSCar com financiamento do programa Jovens Pesquisadores da FAPESP.

Em Uberlândia desde 2008, Gonzaga começa agora a explorar o cerrado na Estação Ecológica do Panga, uma área de pesquisa da UFU a 30 quilômetros da cidade. “Já vi que a interação entre Nephila e Hymenoepimecis bicolor, que observamos na serra do Japi, também existe no cerrado”, relata o biólogo. Ele também descobriu uma espécie de vespa parasitoide de aranhas que vivem em colônias, mas falta publicar a descrição. Parte do processo de descrição do parasitoidismo tem sido comparar os comportamentos que Gonzaga e Sob­czak encontram aqui no Brasil com aqueles achados por Eberhard na Costa Rica. “Até agora os padrões comportamentais se repetem, e as modificações nas teias são parecidas.”

Mecanismos – Outra fase do estudo, que vem acontecendo ao mesmo tempo, é entender o que dá à aranha o sinal de modificar a teia. Os biólogos brasileiros já descartaram a hipótese de que a energia sugada pelas larvas alteraria o comportamento da aranha, como mostraram em experimento descrito em 2010 na Ethology, Ecology and Evolution. Em campo, eles puseram gaiolas de bambu e tela em volta dos galhos e arbustos que sustentavam 15 teias, de maneira a impedir que os insetos chegassem a elas. Eles então controlaram a alimentação das aranhas por 21 dias. Um grupo sem parasitoides ganhava uma mosca por dia, outro também sem a larva ficava sem comida e o terceiro grupo, de aranhas parasitadas, recebia uma mosca a cada dia. As aranhas ficaram mais fracas com o tratamento, mas não passaram a produzir teias como as que sustentam casulos.

Em colaboração com um grupo da Unicamp, Sobczak tenta descobrir possíveis alterações químicas nas larvas em estágio final do desenvolvimento. “Não sabemos se a larva injeta um composto desconhecido na hospedeira ou se induz a aranha a produzir uma substância parecida com a que libera antes da muda, já que a teia modificada lembra a que as aranhas constroem nesses momentos”, explica Gonzaga.

Sobczak tem investido boa parte de seu tempo na serra do Japi, onde faz experimentos de campo para avaliar a importância da modificação das teias para a sobrevivência das larvas. Segundo Gonzaga, uma teia normal se desfaz em poucos dias sem a manutenção constante da aranha, enquanto a modificada dura mais de um mês, tempo mais do que suficiente para a larva, que passa cerca de uma semana no casulo, se transformar em vespa adulta. A teia que abriga o casulo é mais robusta porque é feita com fios reforçados que a prendem a galhos e folhas e porque não tem os fios adesivos que servem de armadilha para insetos. “Uma presa se debatendo na teia poderia derrubar o casulo”, imagina o biólogo da UFU.

Na tentativa de provar que a teia modificada interfere na sobrevivência das vespas, Sobczak vem instalando casulos em teias normais. Assim que a aranha modifica a teia e a larva está prestes a matá-la e a se encasular, ele transfere para uma teia intacta e desabitada a aranha e a larva, que faz seu casulo numa teia que continuará a capturar insetos e não receberá a manutenção de uma aranha. Os resultados, ainda iniciais, apontam na direção esperada: os casulos não são bem-sucedidos nas teias normais.

Gonzaga tem muito trabalho pela frente. O universo da manipulação de hospedeiros por parasitoides tem uma série de exemplos fascinantes. É o caso da lagarta de mariposa que vira babá dos casulos das vespas que se alimentaram dela na fase larval, estudado por um grupo holandês, da Universidade de Amsterdã, em colaboração com pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais, liderados por Eraldo Lima e Angelo Pallini.

As lagartas Thyrinteina leucocerae e as vespas do gênero Glyptapanteles foram coletadas no campus da UFV e mantidas em laboratório. Nesse caso os ovos, cerca de 80, são postos dentro do corpo do hospedeiro. As larvas saem por furos que fazem na lagarta, que permanece junto aos casulos até o final do desenvolvimento da vespa, segundo artigo de 2008 na PLoS One. Ante os ataques de predadores, a guardiã faz vigorosos movimentos com a cabeça e espanta até metade deles. Mas morre pouco depois que as vespas adultas emergem dos casulos. É possível que larvas que permanecem vivas dentro da lagarta puxem os fios da marionete, mas não se sabe como.
Manipulações ainda mais espetaculares por vespas parasitoides já foram descritas em outros países, mas é difícil imaginar que sejam localizações privilegiadas. Diante da espantosa diversidade biológica que os ecossistemas brasileiros abrigam, é questão de tempo – e de muito trabalho – até que mais exemplos surjam. Dignos, quem sabe, dos mais arrepiantes filmes de terror.

Revista UNESP Ciência - "Código Florestal ao arrepio da ciência"


Jornalista: Giovana Girardi
Órgão: Revista UNESP Ciência - São Paulo

Código Florestal ao arrepio da ciência 

Projeto prevê alteração da lei sem responder a previsões de danos ambientais que vêm sendo feitas por especialistas de diversas áreas de pesquisa

No mês que vem, quando o governo federal anunciar de quanto foi o desmatamento da Amazônia neste ano, é muito provável que ele mostre a menor taxa desde 1988, quando o dado começou a ser medido anualmente pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Uma vitória no caminho do compromisso assumido internacionalmente de reduzir o desmatamento para diminuir as emissões de gases de efeito estufa do país. Paralelamente, porém, é provável que o Congresso esteja votando um projeto de lei que substitui o atual Código Florestal - e que muitos pesquisadores e ambientalistas entendem ir na contramão desse compromisso, ao diminuir a proteção às florestas e permitir novos desmatamentos.

O texto original, de 1965, que sofreu alterações em 1989 e em 2000, dispõe sobre as chamadas APPs (áreas de preservação permanente, como matas ciliares e topos de morro) e a Reserva Legal, ou RL (trechos de propriedades privadas que não podem ser desmatados - a porcentagem varia conforme o bioma). Bastante rigoroso, ele é também largamente desrespeitado, e mais de 80 milhões de hectares de terra no país estão em situação de não conformidade com o código. A proposta de substitutivo elaborada pelo deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB-SP), e já aprovada em comissão especial para votação em plenário, flexibiliza esses instrumentos de proteção com a justificativa, entre outras, de regularizar proprietários que infringiram a legislação vigente.

Esse projeto de lei vem sendo amplamente criticado por pesquisadores de diversas áreas diretamente relacionadas à matéria e não há informações que assegurem sua fundamentação científica, seja para as alterações previstas por seus dispositivos, seja como contraposição às objeções levantadas contra ele.

Cientistas alegam que, ao tentar minimizar os problemas do agronegócio, a proposta acaba colocando em risco a biodiversidade e os serviços ambientais prestados pela floresta. Quando questionado sobre o assunto, Aldo diz que ouviu, sim, pesquisadores, sem citar algum nome específico ou mostrar papers publicados. Certa vez, em uma coletiva de imprensa, deixou escapar de onde teria vindo sua consultoria científica: um assessor é biólogo. Mas a própria comunidade científica faz um mea-culpa. Apesar de não faltarem trabalhos que mostrem as consequências das supressões de vegetação nativa previstas, pesquisadores admitem que eles mesmos demoraram para se manifestar sobre a necessidade de modificar o código, inclusive para torná-lo mais efetivo.

"O problema da maior parte da pesquisa existente é ela não ser adequadamente direcionada (ou decodificada) para atender demandas vindas da legislação. Não acho correto os pesquisadores afirmarem que existe enorme quantidade de informação disponível se ela não foi, com a ajuda deles, convertida em algo que possa ser útil na discussão", desabafa Gerd Sparovek, da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), da USP. "O Código Florestal vem sendo negligenciado pelos agricultores, por quem fiscaliza, e também na pesquisa praticamente desde que ele foi criado. Estamos correndo atrás do prejuízo, com pressa e sem o cuidado e rigor necessários ao processo de produção científica, em muito, porque não demos a atenção devida ao problema no passado."

É desse agrônomo o cálculo do tamanho do déficit de vegetação no país. De acordo com o Código Florestal, deveria haver em APPs 103 milhões de hectares (Mha) no país, mas só 59 Mha estão protegidos. Já em Reserva Legal, o déficit é de 43 Mha, diante de 254 Mha previstos. São terras que, pela legislação vigente, deveriam ser recuperadas. O substitutivo proposto por Rebelo exime dessa responsabilidade terrenos, desmatados até 22 de julho de 2008, que sejam considerados áreas rurais consolidadas (com edificações, benfeitorias e atividades agrossilvipastoris), para as quais deverão ser promulgados programas de regularização ambiental em até cinco anos a partir da publicação da lei.

"Não há justificativa nenhuma para isso", critica o biólogo Carlos Joly, da Unicamp, e um dos coordenadores do programa Biota/Fapesp. "O código foi modificado em 1989, usou-se o avanço do conhecimento científico para aprimorar a versão original e não há por que agora dizer que quem descumpriu até 2008 está anistiado. Tem de exigir a restauração. Temos um conhecimento técnico para que isso aconteça. Tem um custo enorme? Bem, então vamos pensar em maneiras como isso pode ser financiado", complementa.

Essa medida, acreditam pesquisadores ouvidos pela reportagem, pode incentivar novos desmatamentos - perderia o sentido respeitar as regras se no intervalo de alguns anos pode surgir uma nova lei e perdoar os passivos ambientais do passado.

Joly organizou em agosto um seminário na Fapesp com pesquisadores de várias áreas do conhecimento para discutir os principais impactos que a alteração do código pode trazer para fauna e flora e para os serviços que a floresta presta em termos de proteção dos recursos hídricos, polinização, dispersão de sementes, etc. São dados já conhecidos há tempos pela academia, mas que foram apresentados juntos (e serão compilados até o final do ano em uma edição da revista Biota Neotropica) para tentar estender a discussão e demover os congressistas da ideia de votar o projeto agora, logo depois das eleições.

"O fato de o código hoje ser tão desrespeitado mostra que de fato tem algo de errado com ele. Precisamos chegar a um consenso, mas para isso precisamos nos basear nas pesquisas. E há lacunas a serem preenchidas, como estudos que mostrem alternativas, que apontem exatamente o tamanho do custo [socioeconômico e ambiental] do desmatamento em relação à recuperação da mata e ao investimento de tecnologias na agropecuária, por exemplo. Mas a tônica é evitar uma votação imediata, porque faltam dados para tomar uma decisão", defende o ecólogo Jean Paul Metzger, da USP.

Extinção em massa

Em carta publicada em 16 de julho na revista Science, ele, Joly e colegas alertaram que a modificação do código pode levar a um aumento "substancial" de emissões de gás carbônico e à extinção de pelo menos 100 mil espécies. Esse número considera uma eventual perda de 70 milhões de hectares na Amazônia em decorrência da diminuição da Reserva Legal. O projeto de lei prevê que "pequenas propriedades" com até quatro módulos fiscais - o que na região pode passar de 400 hectares - não precisam manter a área. Além disso, em algumas condições, permite que as APPs sejam incluídas no cômputo da RL do imóvel. E autoriza que a recuperação da reserva seja realizada com plantio intercalado de espécies nativas e exóticas, sendo que estas não podem exceder 50% da área total a ser recuperada.

Outra mudança que pode ter implicação direta sobre a biodiversidade é a redução de APPs dos atuais 30 metros para 15 metros nas margens de corpos d'água com menos de 5 metros de largura. "Isso representa mais de 80% dos rios brasileiros", afirma Joly. Peixes e anfíbios serão os primeiros a sentir as mudanças, de acordo com uma dupla de pesquisadores da Unesp.

A bióloga Lilian Casatti, do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (Ibilce), do câmpus de São José do Rio Preto, que está compilando os trabalhos sobre o impacto na ictiofauna para a Biota Neotropica, lembra que a maioria das espécies de peixes de água doce do país vive nos pequenos riachos, dependendo assim da presença de matas ripárias. A supressão da floresta significa, por exemplo, uma maior incidência de sol na água, aumentando sua temperatura, o que leva a uma proliferação de algas e, por fim, à eutrofização da água, provocando a morte de peixes.

Ela comparou a situação de 95 riachos do noroeste do Estado, escolhidos aleatoriamente - metade estava totalmente desmatada nas margens e metade mantinha alguma preservação. "A diferença era visível. Onde não tinha mata, as espécies exóticas, mais tolerantes, dominavam, substituindo as espécies nativas especialistas."

Os peixes maiores, de interesse para a pesca, também podem sentir o impacto da diminuição da mata ciliar. "Se as cabeceiras ficam desprotegidas, a parte mais larga, rio abaixo, vai acabar sofrendo com o assoreamento. Muitas espécies que colocam os ovos no fundo dos rios podem assim ter os filhotes soterrados. Além disso, se o leito está assoreado, o rio perde em volume e, sem as colunas d'água, grandes predadores, como tucunaré, dourado, jaú e pintado, vão perder área."

Também nos menores riachos é onde ocorre a maioria das espécies de anfíbios, lembra Célio Haddad, da Unesp de Rio Claro, que colaborou com Felipe Toledo, da Unicamp, além de outros especialistas, para revisar a mudança do código sob o ponto de vista da conservação de anfíbios. Esses animais se reproduzem na água, mas usam as matas ciliares para abrigo e alimentação. A diminuição de APPs, assim como de Reserva Legal, pode promover redução e fragmentação de habitats, com consequências como endogamia (cruzamento entre parentes, levando à perda de diversidade genética), além de aumento da radiação, promovendo insolação direta sobre os ovos, larvas e girinos.lém de não ser "ético o ser humano destruir outros organismos, eliminar espécies", a perda de anfíbios, assim como pode ocorrer com os peixes, vai alterar o equilíbrio ecológico. Reduzir suas populações significaria ter uma proliferação de insetos, que podem ser praga da agricultura ou transmissores de doenças para o homem, além de diminuir a oferta de alimento para peixes, répteis, aves e mamíferos que predam anfíbios. "Deveríamos estar indo no outro caminho, de reconectar os fragmentos. A proposta vem na contramão de tudo o que a ciência está falando que é para fazer, não só por uma questão de bondade com os organismos, mas para o bem do ser humano", afirma.

Para Haddad, além de não ser "ético o ser humano destruir outros organismos, eliminar espécies", a perda de anfíbios, assim como pode ocorrer com os peixes, vai alterar o equilíbrio ecológico. Reduzir suas populações significaria ter uma proliferação de insetos, que podem ser praga da agricultura ou transmissores de doenças para o homem, além de diminuir a oferta de alimento para peixes, répteis, aves e mamíferos que predam anfíbios. "Deveríamos estar indo no outro caminho, de reconectar os fragmentos. A proposta vem na contramão de tudo o que a ciência está falando que é para fazer, não só por uma questão de bondade com os organismos, mas para o bem do ser humano", afirma.

Quanto maior, melhor

Para a manutenção mais efetiva de algumas espécies de animais, aliás, os pesquisadores pedem uma revisão diferente do Código Florestal: que ele fique mais rigoroso. É a conclusão a que chegaram os pesquisadores Carlos Peres e Alex Lees, da Universidade de East Anglia, na Inglaterra, após analisarem populações de aves e mamíferos em 37 fragmentos florestais na região de Alta Floresta (MT), em 2005.

Com o apoio de imagens de satélites, eles definiram as condições de largura e estrutura mínimas necessárias para manter viáveis esses grupos e concluíram que a funcionalidade desses corredores é maior quando eles estão conectados a grandes manchas de matas. Os espaços mais estreitos (com menos de 200 metros de largura) e isolados - condição da maioria das matas que restaram no arco do desmatamento na Amazônia - apresentaram um terço das aves e um quarto dos mamíferos vistos nos fragmentos maiores e mais conectados.

"Qualquer extensão de mata em regiões já muito desmatadas, como grande parte do arco do desmatamento amazônico, cumpre um papel de importância altamente desproporcional na retenção da biodiversidade", explica Peres. "A largura exigida pelo código vigente representa um mínimo necessário para que esses remanescentes continuem funcionando tanto como corredores ecológicos, amenizando a hostilidade de qualquer paisagem desmatada, quanto como habitat florestal para uma gama de espécies com níveis de especificidade diferenciados."

Resultados semelhantes foram obtidos por Fernanda Michalski, do Instituto Procarnívoros e da Universidade Federal do Amapá, que estudou a eficiência dos corredores para carnívoros de médio porte na mesma região. Seu propósito era verificar que tipos de fragmentos estavam sendo habitados por esses animais, para analisar quão coerente é a nossa legislação em termos de conservação. Descobriu que o tamanho das matas ao longo de cursos d'água é, de longe, o principal determinante para a viabilidade de diversas espécies. 

Durante os oito anos em que esteve no norte de Mato Grosso estudando a fragmentação na Amazônia, a pesquisadora não encontrou em áreas florestadas com cerca de 800 hectares animais como queixadas. Em fragmentos de 100 hectares, a probabilidade de ocorrência de onças-pintadas foi inferior a 40%.

Outro impacto importante é no chamado efeito de borda - a vegetação que fica, como o nome diz, na borda de um corredor ou fragmento é sempre mais afetada pelas perturbações externas, como luminosidade, ressecamento do ar e do solo, rajadas de ventos, queimadas, etc. De acordo com Metzger, em artigo publicado na revista Natureza e Conservação sobre as bases científicas do código atual, esses efeitos são mais intensos nos primeiros 100 metros de largura, "o que implica que corredores com menos de 200 metros são formados essencialmente por ambientes de borda, altamente perturbados", escreve, citando Peres e Lees. Fernanda conta que notou, em trechos de 100 metros no Mato Grosso, "uma grande proporção de árvores mortas, especialmente de grande porte".

Os autores sugerem que as APPs em torno de rios na Amazônia deveriam manter pelo menos 200 metros de área florestada de cada lado para que haja uma plena conservação da biodiversidade. "A manutenção de corredores de 60 m (30 m de cada lado do rio), conforme a legislação atual, resultaria na conservação de apenas 60% das espécies locais", cita Metzger.

Serviços para o homem

Em setembro, Fernanda, Peres e o zoólogo Darren Norris, que é doutorando na Unesp de Rio Claro, frisaram em carta na Science que "as reformas poderão levar a perdas irreversíveis à biodiversidade". Eles reafirmam que a redução dos corredores florestais significa que as paisagens vão perder a capacidade de reter e conectar espécies e de manter a qualidade e o fluxo de recursos hídricos. O empobrecimento do ambiente poderá ser sentido pelas erosões no solo e pela cada vez menor capacidade de captação de água, o que em si pode trazer consequências econômicas, como a desvalorização do preço da terra.

"Há uma relação direta com o funcionamento do ecossistema. A floresta não vai mais funcionar como deveria, não terá mais dispersor de semente nem polinizador. Com isso, tudo o que ela provia, como reduzir assoreamento de rios, diminuir a temperatura local, vai se perder", complementa Mauro Galetti, da Unesp de Rio Claro e organizador de uma compilação de estudos sobre impactos nos mamíferos.

José Galizia Tundisi, do Instituto Internacional de Ecologia e um dos principais especialistas em recursos hídricos do país, concorda. "Os leigos, em geral, esquecem que a vegetação é parte do ciclo hidrológico. Sem ela, a água não consegue se infiltrar, diminui a capacidade de produção de vapor d'água que depois vai trazer chuva." Segundo ele, o aspecto mais prático dessa história é que quando há uma vegetação protegendo os mananciais tem-se um custo de tratamento de água menor. "Em algumas áreas do interior de São Paulo onde o manancial está bem protegido, calculamos que o tratamento de mil metros cúbicos custa R$ 2. Quando não há vegetação, isso pode subir para R$ 300."

Sem contar que o maior assoreamento dos rios pode tornar mais frequentes e intensas as inundações rio abaixo, afetando as populações ribeirinhas que moram ao longo do curso d'água. "Transfere-se o ônus da produção agrícola para a população mais carente de centros urbanos", diz Joly.

Galetti complementa: "É comum a gente ouvir: 'ah, para que proteger o mico-leão?'. O problema é que ninguém faz o papel do mico-leão. Ele dispersa no mínimo umas cem espécies de plantas, que não têm outros dispersores. Portanto, para ter uma mata ciliar rica, que proteja o rio, é preciso ter o mico-leão. É o papel ecológico de cada espécie no ecossistema".

Ele cita como exemplo um problema que já se observou no sudoeste de São Paulo, onde foi extinto localmente o cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus) em razão da destruição das várzeas (essas áreas deixam de ser consideradas APPs pelo novo código) para construção de hidrelétricas. Em estudo realizado na área de inundação da usina Sérgio Motta, José Maurício Barbanti Duarte, da Unesp de Jaboticabal, e colegas estimaram uma redução populacional de 80% dois anos após o enchimento do reservatório. "O bicho tenta fugir para algum lugar, acaba indo para os pastos, onde estão os animais domésticos, levando doenças que não existiam ali", explica Galetti.

A maior parte dos pesquisadores ouvidos na reportagem acredita que o prejuízo aos serviços ambientais pode acabar afetando a própria agricultura. Os danos diretos são erosão e diminuição da oferta de água.

Ao longo de dez anos Joly conduziu um projeto na região do rio Jacaré Pepira, em Brotas (SP), onde comparou o grau de erosão entre solos com mata ciliar bem preservada, com pastagem e sem nada. "No último caso, a perda de solo chegou a 15 toneladas/hectare/ano. Na área de pastagem esse valor cai para cerca de 700 kg/ano. Na mata ciliar, não chega a 500 gramas. Claro que ninguém vai deixar o solo nu o ano inteiro, mas, se em vez da pastagem, que é uma cobertura de certa forma homogênea e contínua do solo, tiver uma cultura com plantio intercalado e áreas de solo aberto no meio, aumenta tremendamente a erosão", explica.8/1939, com as florestas plantadas pelo governo Roosevelt. É um exemplo bem claro do que pode acontecer aqui."

Tundisi recorda uma situação similar que ocorreu nos Estados Unidos na década de 1920, na região do Texas. "Ali havia uma grama que protegia as planícies, mantinha a umidade. O governo incentivou a produção de trigo no local. Por alguns anos, tiveram colheitas magníficas. A partir de 1930 o solo começou a se degradar. Sem a grama, ocorreu uma seca e perdeu-se toda uma região. Isso só começou a ser recomposto em 193

Questionado pela reportagem sobre quais estudos teriam fundamentado as mudanças no Código Florestal, o deputado Aldo Rebelo não citou nomes de pesquisadores, nem publicações científicas. "Nos baseamos em estudos dos consultores da Câmara dos Deputados, engenheiros florestais, biólogos, e outros especialistas que ajudaram inclusive na redação da proposta", disse. "Promovemos audiências no país inteiro, todos que quiseram se manifestar, o fizeram. Agora, não deu para ouvir pessoalmente esse ou aquele pesquisador. Há muitos pesquisadores."

Ele disse que ouviu "especialmente a Embrapa", e que um dos pontos mais polêmicos da proposta teria sido referendado pela área ambiental do governo. "A resolução de reduzirmos a mata ciliar nos córregos de 30 para 15 metros foi de acordo com o Ministério do Meio Ambiente", disse. "Também nos baseamos em estudos de legislação comparada, já que não existe reserva legal em nenhum país do mundo."

"Não foi bem isso", rebateu João de Deus Medeiros, diretor de Florestas do ministério. "Tínhamos proposto que matas ripárias de rios com largura de até 10 metros tivessem 15 metros, em vez de 30 metros, exclusivamente nos casos de recomposição da vegetação." Segundo ele, o MMA trabalha num texto alternativo ao do deputado, pois vários pontos são conflitantes com a política do governo federal. "Nossa proposta não pode ser interpretada como flexibilização. Todos os rios de até 10 metros precisam ter 30 metros de mata de cada lado. Não vamos permitir que se rea-lizem novos desmatamentos nas APPs."

Após a reportagem ter reiterado a solicitação de avaliações científicas sobre as consequências ambientais da alteração da lei, o deputado disse que em vez de um corte científico, a reportagem teria um viés político. E, apesar de não ter indicado nenhum cientista favorável ao seu substitutivo, desafiou: "Quero ver se vocês só vão ouvir o grupo de pesquisadores que se opõem à proposta. Parece que sim. Então não é honesto de sua parte dizer que a reportagem será estritamente científica."

Mesmo sem o deputado ter apontado pesquisadores e estudos favoráveis ao seu projeto, insistimos. Procuramos a Embrapa para responder à pergunta: é possível manter essa necessária proteção às florestas e ainda atender às demandas de um setor que tem forte apelo para a economia, ao representar quase 30% do PIB nacional?

A dúvida foi espalhada pelo setor ruralista do Congresso a partir de 2009, quando ganhou destaque um estudo feito por Evaristo Eduardo de Miranda, então chefe da Embrapa Monitoramento por Satélite, que sugeriu que faltaria terra para a expansão agrícola no país se fosse cumprida à risca a legislação ambiental, fundiária e indigenista. O trabalho, criticado por ambientalistas e pela academia, acabou não sendo endossado nem mesmo pela Embrapa.

Terra de sobra

"Não há problema, no momento, de falta de terra para expansão da agricultura e pecuária no Brasil", afirma Celso Manzatto, chefe-geral da Embrapa Meio Ambiente. "Mostramos nos últimos 20 anos que é possível ganhar produtividade sem precisar incorporar novas terras. Não significa, necessariamente, que vamos ter desmatamento zero. O que o país precisa, e ainda não dispõe, é de políticas de ordenamento do território que apontem claramente quais são as áreas a serem ocupadas para a produção agropecuária no futuro."

Procurado pela reportagem, Miranda disse que sustenta seus dados: "Há um problema entre o uso efetivo da terra e o que fala a lei". Mas afirma que não chegou a ser ouvido na formulação do substitutivo.

Já Gerd Sparovek, que fez um mapeamento semelhante de quanto do território deveria estar, ou já é, preservado, defende que não existe necessidade de revisar o código para permitir o desenvolvimento do setor agropecuário. Segundo ele, a agricultura tem espaço para se expandir sobre áreas de elevada e média aptidão agrícola que hoje são ocupadas pela pecuária extensiva (com 1,1 cabeça por hectare). Pelos seus cálculos, encontram-se nestas condições 61 Mha, dentre os 211 Mha ocupados pela pecuária. "Com isso é possível quase dobrar a área agrícola no país", diz. Hoje a atividade se espalha por 67 Mha.

Para garantir esse espaço, seria necessário adotar técnicas de intensificação da pecuária e de integração com a agricultura, que, apesar de já estarem desenvolvidas do ponto de vista técnico, ainda são muito pouco adotadas. Sparovek acredita que a explicação para isso é complexa. "A falta de alternativas de desenvolvimento em outros setores, a ausência de remuneração da floresta em pé, a frouxa fiscalização, a valorização imobiliária de terras depois de desmatadas, a existência de mercado para produtos de desmatamento (carvão vegetal, madeira) e aspectos culturais do uso da terra como reserva patrimonial são, provavelmente, as razões para a contínua expansão da fronteira agrícola no Brasil através do desmatamento", diz.

Por isso, ele acredita na necessidade de criação de um "gatilho que desencadeie uma nova forma de as coisas acontecerem", que teria de vir no formato de uma lei ambiental sobre áreas privadas que tenha condições de ser cumprida. "Que seja adequadamente fiscalizada e restrinja de forma muito contundente a abertura ilegal de novas áreas bem como o desmatamento em situações em que ele não se justifica para o estabelecimento de uma agropecuária intensiva."

Apesar de concordar que é possível crescer dessa forma, o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, coordenador do Centro de Agronegócio da FGV, em São Paulo, e professor de Economia Rural da Unesp de Jaboticabal, vê a questão com ressalvas.

"Estou convencido de que a integração pecuária-lavoura é algo que vai revolucionar a agricultura do mundo inteiro. É um caminho formidável para ampliar a produção, mas a incorporação de tecnologia é um processo que depende de uma política de renda para o campo que o Brasil não tem ainda. Razão pela qual ampliar a fronteira talvez seja mais barato", afirma.

"Penso que o crescimento da produtividade, tanto na pecuária quanto na agricultura e na integração das duas atividades, pode resolver o problema do desmatamento da Amazônia. Mas não sei se resolve o problema do Cerrado. Lá é muito barato abrir terra. Então há uma tendência de ampliar essa área", complementa.

O problema, diz ele, é que o código atual está "desatualizado em função da realidade dos fatos". "Não estou fazendo juízo de valor se está certo ou errado, mas estou dizendo como é a vida real, não como a gente sonha. Porque é muito mais difícil uma reforma no crédito rural e ter tecnologias que sejam mais sustentáveis entrando rapidamente do que ampliar a fronteira."

Rodrigues afirma que a proposta de Rebelo "tem um mérito enorme de ninguém ter gostado dela". Para ele, isso significa que ela é equilibrada. Mas criticou o artigo 47, que prevê moratória de cinco anos em que não será permitida a supressão de florestas para o estabelecimento de atividades agropastoris - excetuam-se imóveis que já tenham autorização de corte emitida.

"O agronegócio sente que o país perde uma oportunidade de crescer", diz. "Tem de fazer uma lei que seja realista. Se fizer uma lei que estabeleça uma moratória para o desmatamento do Cerrado, mas ela não for acompanhada de instrumentos de política econômica para o campo que permitam o crescimento da tecnologia e o aumento da produção nas áreas já disponíveis, [o desmatamento] vai acontecer."

Para Manzatto, o problema é que há uma situação de conflito em algumas regiões que estão na ilegalidade, em especial nos casos considerados de ocupação consolidada (como os arrozais em várzea no sul do país), e é preciso discutir essa ocupação. "E é evidente que tem também um componente social de recomposição dessas áreas que precisa ser dimensionado", diz.sugerimos uma moratória de pesquisas para que pudéssemos gerar dados um pouco mais técnicos e embasados para a discussão."

Mas ele admite que nem a Embrapa tem condições de falar em quanto, por exemplo, poderiam ser alteradas as faixas de proteção no país. "Na verdade nós não temos os indicadores e até 

BOX - Impactos do novo código

Um dos pontos mais polêmicos do projeto que altera o Código Florestal é a redução da APP (área de preservação permanente) de 30 metros para 15 metros nas margens de riachos com até 5 metros de largura. Essa é a situação em que se encaixa a maioria dos riachos de cabeceira do país. Os impactos atingem a biodiversidade e os serviços ambientais da floresta. Veja alguns exemplos:

Espécies aquáticas

Com menos árvores nas margens, aumentam a incidência de luz sobre a água e a temperatura, o que afeta o metabolismo dos peixes e sua reprodução. Nos riachos pequenos é também onde ocorre a maior parte dos anfíbios. A redução de metragem deve causar declínio populacional e eventualmente extinção de espécies

Proliferação de insetos

Sem peixes e anfíbios, insetos que são pragas agrícolas e transmitem doenças para seres humanos ficarão livres de seus principais predadores naturais

Eutrofização de corpos d'água

Com mais luz e menos larvas de anfíbios para se alimentar de cianobactérias (tóxicas), algas e plantas aquáticas,elas proliferam, promovendo a eutrofização dos rios e de reservatórios de água.

Desconexão de habitats

Mata ripária bem preservada funciona como corredor ecológico; se o seu tamanho é muito reduzido, animais maiores já não conseguem fazer uso dele. Também diminuem os serviços de polinização e dispersão de espécies. Tudo junto ajuda a promover o isolamento de espécies, a perda de diversidade e, ao final, extinção

Assoreamento

Com uma floresta ripária menor, aumenta o fluxo de sedimentos, fertilizantes e pesticidas que entram nos rios através do escoamento superficial ou subterrâneo, o que pode diminuir a oferta de água e encarecer seu tratamento.

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