Quem acompanha, mesmo que de longe, a evolução das negociações internacionais envolvendo animais marinhos e sua exploração comercial sabe bem que o ambiente é cercado de controvérsias e denúncias de compra de votos em benefícios de países com grande poder de barganha, como o Japão

Uma das propostas, que entrou na pauta da votação já no primeiro dia de deliberações da CBI e é apresentada desde 2001, é a criação do Santuário Baleeiro do Atlântico Sul, seguindo o caminho de outras regiões como o Oceano Índico, que tem suas águas protegidas desde 1979, e o Austral, desde 2001.
"Infelizmente, na 64° Reunião da CIB não se conseguiu aprovar o Santuário de Baleias no Atlântico Sul. A votação foi 38 a favor, 21 contra e 2 abstenções [precisava de 75% para a aprovação]. O Japão comprou votos de países menores e impediu a criação", denuncia José Truda Palazzo Jr, diretor do escritório brasileiro do Centro de Conservação Cetácea (CCC), que está no Panamá acompanhando a reunião.
A proposta, que visa proteger mais de 50 espécies de cetáceos, é encabeçada por países latinoamericanos conhecidos como Grupo Buenos Aires (GBA), liderado por Brasil e Argentina. Ela pode ser colocada novamente no próximo ano, esclarece Truda.
Apesar de a maioria dos membros da CBI apoiarem a sua criação, os países com interesses baleeiros têm barrado a proposta.
Para Truda, faltou empenho por parte do Brasil para pressionar os países que são contra a criação do santuário. Ele ressalta que o Ministério do Meio Ambiente não fez "nada" e o Ministério das Relações Exteriores "fez muito pouco do seu dever de casa".
Na reunião da CIB do ano passado, no Reino Unido, vinte países liderados pelo Japão, entre eles Noruega e Islândia,obstruíram, por falta de quórum, uma votação objetivando a criação do santuário.
Cotas
Denúncias de que o Japão tem comprado votos de algumas nações caribenhas e africanas são recorrentes e permeiam outro assunto complicado em discussão na CBI, as cotas e a moratória para a caça de baleias.
Uma reportagem do jornal britânico The Sunday Times comprovou no ano passado a compra dos votos de países como Kiribati, Ilhas Marshall e Tanzânia. Os repórteres se passaram por bilionários conservacionistas oferecendo quantias em dinheiro para os mesmos países votarem contra as diretrizes japonesas.
Entre 2008 e 2010, os Estados Unidos, através do processo de negociação chamado 'O futuro da CBI', buscou eliminar a moratória global sobre a caça comercial e legitimar a matança de baleias para "supostos fins científicos incluindo as zonas designadas santuários", denuncia a CCC. A iniciativa foi votada e não conseguiu apoio suficiente.
Porém, outras propostas estão no centro dos debates atuais sob as chamadas 'cotas para subsistência aborígene', renovadas a cada cinco anos com o objetivo de suprir a necessidade nutricional de povos tradicionais do Alasca, Rússia, Groenlândia e Caribe (St. Vincent e Grenadines).
"Até 2012, a renovação destas cotas não gerava grandes debates fora da CIB e eram geralmente adotadas por consenso. Porém, a crescente natureza comercial das caçadas pela Groenlândia e infrações sistemáticas das regras da CIB por St. Vincent e Grenadines (ex. caça de mães e filhotes) levaram a questionamentos sobre os reais interesses por trás da renovação de tais cotas", explica o CCC.
A ONG denuncia que os nativos das ilhas caribenhas não praticavam a caça da baleia, que foi introduzida por norte-americanos e que as ilhas seriam um dos alvos da compra de votos pelo Japão. Outras denúncias sérias da Sociedade de Conservação das Baleias e Golfinhos envolvem a venda de carne de baleia em hotéis, restaurantes e supermercados.
John Frizell, ativista do Greenpeace, pondera :"Nunca fomos contra estas cotas já que é a caça comercial industrializada que tem acabado com as populações, não a tradicional, mas esta caça se tornou uma ferramenta política para aqueles que buscam retomar a caça comercial, uma chance de envergonhar países como os Estados Unidos que se opõe fortemente à caça comercial, mas também tem muita caça tradicional".
Segundo Frizell, Mônaco colocou na mesa para discussão uma resolução que convida a Organização das Nações Unidas a entrar nos debates sobre outro problema crítico, a dita 'caça para fins científicos', realizada descaradamente pelo Japão nos cetáceos no santuário de baleias do oceano austral devido a brechas nas regras da CIB.
Como o Japão tem direito de se auto-outorgar as quotas, esta é uma discussão extremamente complicada no âmbito da CIB, e que é alvo de campanhas anuais da ONG Sea Shepherd.
Há quase dois meses, Paul Watson, fundador da Sea Shepherd, está preso na Alemanha devido a um mandado de prisão emitido na Costa Rica, onde ele encabeçou uma operação contra a retirada ilegal de barbatanas de tubarão. Chamada 'finning', a prática é extremamente cruel com os animais. A ONG está pedindo apoio para impedir a extradição de Watson para a Costa Rica.