Pesquisa revela conhecimento etnobotânico de ribeirinhos
O que é uma floresta de várzea:
Floresta de várzea é um tipo de floresta de planícies inundáveis invadidas por enchentes sazonais na Bacia Amazônica.
Ao longo do rio Amazonas e muitos de seus tributários, uma alta taxa pluviométrica que ocorre durante a estação das chuvas resulta em grandes enchentes estacionais. O resultado é aumento no nível de águas carregadas de nutrientes entre 10–15 metros.

As florestas de várzea dividem-se em dois tipos: as várzeas baixa e intermediária, nas quais predominam palmeiras e as espécies que apresentam raízes aéreas, as quais auxiliam na fixação de oxigênio, como o açaizeiro e o buriti, e a várzea alta, cujo solo é menos influenciado pelas águas das cheias e apresenta maior biomassa. Nela ocorrem espécies arbóreas, como a sumaúma, açacu, andiroba e copaíba.
Tal classificação foi feita de acordo com o nível topográfico, composição química do solo e composição botânica

O Projeto Florestam, coordenado pela Embrapa, documenta a utilização de produtos florestais pelos ribeirinhos do Estuário Amazônico
O Estuário Amazônico, com sua rica biodiversidade, apresenta desafios à pesquisa agroflorestal. Este universo amplo, que divide os estados do Amapá e Pará, cheio de espécies vegetais típicas de áreas alagadas, rios e igarapés, é o foco geográfico de trabalho da equipe do Projeto Florestam, coordenado pela Embrapa Amapá. Um dos pontos de interesse é documentar o uso que os ribeirinhos fazem dos produtos florestais madeireiros e não madeireiros.
“Estudamos a comunidade florestal como um todo e, em particular, espécies como andiroba, pau mulato, pracuúba, açaí e virola, que são de interesse econômico e social dos ribeirinhos”, explica o pesquisador Marcelino Carneiro Guedes, coordenador do Projeto Florestam.
Foram três anos de pesquisa básica e entre os dados obtidos está o conhecimento etnobotânico dos ribeirinhos que vivem em comunidades do município de Mazagão (AP), na foz do rio Maracá, foz do Mazagão Velho e foz do Ajuruxi, afluentes do canal norte do rio Amazonas. A atividade prevista no projeto foi a inspiração para a monografia de conclusão da graduação da bolsista Eneida Silva do Nascimento, no curso Engenharia Florestal da Universidade do Estado do Amapá.

Na região de estudo predominam ambientes inundados pela dinâmica das marés que influenciam a diversidade da vegetação e os hábitos da população. “Isto faz com o que os ribeirinhos tornem-se especialistas no uso dos recursos naturais para fins de subsistência, culturais, religiosos e comerciais”, aponta Eneida Nascimento.
Orientada pela pesquisadora Ana Euler, responsável pelo Plano de Ação correspondente ao levantamento etnobotânico, a então acadêmica fez um levantamento inédito sobre os conhecimentos etnobotânicos relacionados ao uso de vegetais típicos de várzea. Também foi possível identificar, pela primeira vez, se os ribeirinhos conhecem a legislação que lhes assegura proteção do conhecimento tradicional e do patrimônio genético sob sua guarda.
Açaí em primeiro lugar

Das 25 espécies citadas pelos ribeirinhos como fonte de alimentação, o açaizeiro aparece em primeiro lugar, assim como também foi lembrado por 100% dos ribeirinhos entrevistados quando trata-se de uso comercial. Isso demonstra a importância socioeconômica desta espécie para a região, sobretudo sob o embalo do aquecimento do mercado consumidor do “vinho da Amazônia”.
Outras espécies com relevante potencial comercial na região são andiroba, pau mulato e pracuúba. No uso como combustível, o pau mulato e o pacapeuá apresentaram maior frequência de uso e, segundo os ribeirinhos, também fornecem lenha de qualidade para os fogões de barro.
Para a construção civil, a pracuúba e a andiroba foram as mais utilizadas para edificação de casas e trapiches. As plantas para uso medicinal são de grande importância no modo de vida dos ribeirinhos. Foi a categoria de uso que mais contribuiu com número de espécies (43) e famílias botânicas (29) para este estudo do Florestam. As espécies mais lembradas foram a andiroba e o pracaxi. De ambas é extraído o óleo da semente, utilizado como antiinflamatório e cicatrizante.
Em tecnologia artesanal, a maúba e a pracuúba foram as mais citadas para uso na construção e consertos de canoas a remo e embarcações de pequeno porte movido a motor.
Este trabalho proporcionou às comunidades ribeirinhas o acesso a informações sobre a legislação de proteção ao conhecimento tradicional. Ana Euler ressalta que 100% dos 30 entrevistados desconheciam a Medida Provisória 2186 – 16/200 e a existência do Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (CGEN). Atualmente a equipe se mobiliza para dar continuidade ao Projeto Florestam e avançar nas pesquisas em floresta de várzea do Amapá e Estuário Amazônico.
- Seminário apresenta resultados de pesquisas com florestas de várzea

O Projeto Florestam foi iniciado em 2010 e está sendo encerrado neste ano de 2013. De acordo com o pesquisador Marcelino Carneiro Guedes, coordenador da pesquisa e do seminário, durante este período de três anos de estudos, foi feito um grande esforço para conhecimento das características químicas e físicos dos solos e a dinâmica das marés, que nunca tinham sido estudados em profundidade nessa região. “A equipe conseguiu avançar também em estudos sobre o estoque disponível e técnicas de manejo florestal, principalmente de espécies de maior interesse econômico como o pau mulato, a pracuúba e a andiroba. Essas informações subsidiaram normas para o manejo da floresta de várzea, regulamentada recentemente por meio do Decreto Nº 3.325, de 17 de 2013, que traz a revisão de todas as normativas ligadas às atividades florestais no estado do Amapá”, acrescentou o pesquisador. A programação do III Seminário do Projeto Florestam inclui palestras de especialistas da Universidade Federal do Amapá, Universidade do Estado do Amapá, IEPA, Instituto Estadual de Florestas, Ministério Público do Amapá, Embrapa Amazônia Oriental (Pará) e Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).



Imagens de floresta alagada: