sábado, 20 de agosto de 2011

Versão fluvial do Google Street View no Rio Negro




Membros da equipe do Google usam barco com um sistema de câmera de 360 graus montado em um Trike no topo da embarcação para gravar as imagens

A comunidade de Tumbira, na Reserva Florestal do Rio Negro, fica a apenas duas horas de barco de Manaus. É um trajeto bem curto para uma região em que são comuns as viagens por rio de vários dias entre uma localidade e outra. A localização de Tumbira é privilegiada não só pela pouca distância da capital amazonense, mas também pela beleza do lugar, rodeado por florestas virgens e às margens de um igarapé no qual, com um pouco de paciência, é possível ver de vez em quando um boto cor-de-rosa.

Mas apesar dos atrativos, os oito quartos da única pousada do local passam a maior parte do tempo vazios. Só de vez em quando aparecem alguns pesquisadores, funcionários públicos ou jornalistas interessados nas experiências de desenvolvimento sustentável da área. Turistas, mesmo, são bem raros. Mas agora Tumbira vai aparecer para o mundo: o Google começou na comunidade um projeto piloto de fazer imagens do rio, da floresta e da vila, para disponibilizá-las online. Trata-de uma versão fluvial do Google Street View, em que o usuário consegue simular, via internet, uma caminhada pelas ruas de uma cidade.

"Nós vivemos quase no isolamento completo e agora vamos ficar expostos para mundo. Acho que isso vai ser muito bom para nós porque nossa comunidade tem coisa muito boa a oferecer", disse Nadia Garrido, que passou todos os seus 34 anos de vida morando na comunidade de Tumbira.

Privacidade

Mas enquanto nas grandes cidades cada vez mais gente se preocupa de ter a privacidade invadida por câmeras - não são poucos os que pedem que o Google apague suas casa do Street View - a maioria das pessoas na comunidade de 18 famílias parece estar mais empolgada em expor seu canto do mundo, do que receosa de ver câmeras circulando pela área. "Aqui nós todos trabalhamos honestamente então não tem porque ter medo de mostrar nossa comunidade para o mundo", disse Nadia Garrido.

Numa reunião em que compareceram representantes de quase todas as famílias da comunidade, todos os presentes autorizaram que suas casas fossem fotografadas (por fora) e apenas um morador mostrou uma preocupação: pediu que não fotografassem seu bichinho de estimação - uma paca criada desde filhote - por motivos que ele não explicou.

Cientes das controvérsias já provocadas nas cidades grandes pelo tema do respeito à privacidade, os técnicos do Google faziam questão de reforçar, a todos os momentos que levam a questão muito a sério. "Como já acontece com o Google Street View nas cidades, todos os rostos de pessoas que aparecerem nas fotos serão borrados para que não seja possível identificação. E quem quiser vai poder pedir também que a casa seja apagada das imagens", explicou Karin Tuxen-Bettman, uma especialista do Google enviada da Califórnia, para lançar o projeto na pequena comunidade Amazônica.

Na verdade, os funcionários do Google vão passar apenas uma semana na floresta, treinando funcionários da ONG Fundação Amazonas Sustentável (FAS) - sua principal parceira no projeto - e também moradores da comunidade, para que eles mesmos capturem as imagens. "O que queremos é que estas pessoas mostrem a floresta e suas comunidades para o mundo de seu ponto de vista", explicou.

Equipamentos

Serão usadas três técnicas diferentes para a coleta de imagens da região. Para capturar as fotos das margens dos rios - inicialmente num trecho de 50 km do Rio Negro e igarapés adjacentes - será usado um barco com as câmeras em cima. "São oito câmeras que fotografam todo o entorno ao mesmo tempo, fazendo uma panorâmica de 360 graus, e uma câmera apontada para cima. Isso cria algo como uma 'bolha' de fotografia que tira imagens de todos os lados", explica Karin Tuxen-Bettman.

Trata-se, na verdade, da mesma tecnologia que o Google usa nas cidades, colocada sobre um carro. Dentro das comunidades, as imagens serão feitas com a mesma câmera, porém montada em um triciclo, já que não há carros - ou mesmo ruas - nas comunidades ribeirinhas da Amazônia. "Já usamos estes triciclos para fotografar áreas onde carros não podem entrar, como parques e universidades, mas é a primeira vez que vamos colocá-los para rodas em regiões assim", explicou.

E para fazer imagens de dentro da floresta e de alguns prédios públicos - como escolas e centros comunitários - será utilizado um equipamento mais leve e simples: um tripé com uma câmera fotográfica equipada com uma lente grande angular, conhecida como 'olho de peixe', que tira fotos em um ângulo de 180 graus.

Roberto Brito de Mendonça - o presidente da Associação Comunitária de Tumbira - foi um dos primeiros moradores a receber treinamento para utilizar o equipamento. "Não é difícil, não. É bem divertido e gratificante poder fotografar a floresta com essa tecnologia toda", disse. "No começo, a gente até ficou um pouco com um pé atrás, mas a gente tem que evoluir igual ao pessoal da cidade grande. Quem sabe as pessoas vendo a gente na internet não vão se animar a vir pessoalmente aqui pra nos conhecer?", disse.

A ideia de fotografar a Amazônia surgiu cerca de dois anos atrás quando Virgilio Vianna, o superintendente da FAS - uma ONG que conta com grande apoio do governo para desenvolver economia sustentável nas reservas florestais do Estado - conheceu executivos do Google na reunião da ONU para discutir mudanças climáticas em Copenhague. "Propus a ideia e foi imediatamente aprovada. Agora, dois anos depois estamos aqui", diz Vianna.

Economia local

Além do turismo, Vianna espera que mostrar as comunidades amazônicas para o mundo também ajude a reforçar o desenvolvimento de outros aspectos da economia local. "Nada impede que no futuro isso incentive as pessoas a comprarem produtos florestais daqui, produzidos ou extraídos de maneira sustentável", diz. "Esse projeto abre oportunidades novas que eram até então inacessíveis para as pessoas daqui."

Mas por conta do ineditismo e da complexidade do projeto, o Google evita fazer qualquer previsão de prazo para que o material seja efetivamente disponibilizado online. "Tudo aqui é muito diferente. Estamos acostumados a fazer imagens de lugares que têm endereços formais, o que não é o caso dessas comunidades, e muito menos dos rios e da floresta", explica Tuxen-Bettmen. "Aqui vamos ter que contar apenas com coordenadas GPS." Mas a técnica do Google diz que está confiante que essa vai ser mais uma etapa bem sucedida dentro dos ambiciosos planos da empresa.

"O objetivo dos projetos Google Earth e Google Maps é organizar toda a informação geográfica e espacial do planeta e disponibilizá-la para todo o mundo. E esta é uma região do mundo ainda muito carente de mapeamento." Se o Google atingir seu objetivo, uma das regiões mais faladas e mais desconhecidas do mundo pode em breve deixar de ser tão misteriosa.


PAULO CABRAL da BBC Brasil

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