domingo, 22 de abril de 2012

O “Vale dos Esquecidos”, por Maria Raduan





Diretora registra luta pela terra na Amazônia


O Brasil está com a economia em plena ascensão enquanto os países europeus e os Estados Unidos se viram com a crise financeira. Vai sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas, dois dos principais eventos esportivos mundiais. E vai se tornar um dos maiores exportadores de petróleo do planeta após a descoberta do pré-sal. Aparentemente, já estamos no “Primeiro Mundo”. Mas a verdade é que, longe do litoral, o país ainda enfrenta problemas típicos do Terceiro Mundo, como a questão da posse da terra.

Índios, fazendeiros, posseiros, grileiros e movimentos sociais travam uma verdadeira batalha nas regiões do Centro-Oeste e Norte do país. Essa guerra, que já dura décadas e vem tirando cada vez mais vidas e desmatando a região amazônica, é o tema do documentário “Vale dos Esquecidos”. Dirigido por Maria Raduan, o filme estreou nesta sexta-feira (20/4) em São Paulo e no Rio de Janeiro, após passar por alguns festivais nacionais e internacionais.



“A história de ‘Vale dos Esquecidos’ é igual a tantas outras na Amazônia, os personagens são sempre os mesmos”, lamenta a diretora, em entrevista exclusiva à Pipoca Moderna. “A ideia foi mostrar um microcosmo que representa a Amazônia e todo o ‘interiorzão’ do Brasil”, definiu.

A cineasta Maria Raduan conta que o filme surgiu inicialmente com a proposta de expor a história dos índios Xavante, que vivem na região, e sua situação diante da luta por seu espaço, mas logo de cara ela viu que o buraco era ainda maior e mais embaixo.



A Fazenda Suiá-Missú, no Mato Grosso, já foi considerada o maior latifúndio do mundo, ocupando uma área equivalente a 252 vezes a ilha de Manhattan (Nova York), mas tem sido constantemente tomada por diferentes grupos: índios já foram expulsos, grileiros se apropriam com interesse comercial, fazendeiros apresentam documentos de compra que não são reconhecidos pelo Ministério Público Federal e organizações poderosas também se interessam pelo local para o desenvolvimento da agropecuária.

A situação é caótica e mesmo o Estado Brasileiro não consegue (ou não quer) resolvê-la: desde 2010, a Justiça Federal determinou que a região é uma área indígena, porém os outros ocupantes se recusam a abandonar o local.



Para discutir sobre o assunto, Maria resolveu fazer uma “radiografia” cinematográfica, realizando uma complexa pesquisa com fotos, áudios e imagens, além de recolher depoimentos de todas as partes envolvidas.

“Desde a concepção do projeto, quis adotar uma postura de isenção, quis apresentar a história e seus diversos lados. E todo o esforço de montagem do filme é para que o espectador tenha elementos para entender o contexto historicamente e fazer algum julgamento, se lhe convier”, explicou a diretora.



Desta forma, ela deu voz a representantes dos grupos que reivindicam o local, uma cacofonia babélica que destaca Dom Pedro Casaldáliga, bispo duas vezes indicado ao Prêmio Nobel, o cacique Damião Paridzané, o líder Xavante Marawãtsède, o fazendeiro John Carter, o político Filemon Limoeiro, o posseiro Neto Figueiredo e a líder dos sem-terra Rosa Silva.

É um cabo de guerra com vários lados, geralmente tratado de forma superficial pela grande mídia. E para juntar suas pontas, a diretora precisou enfrentar inúmeras dificuldades, desde o acesso e locomoção na região, além das forças da natureza e a comunicação com todos os envolvidos. “É um assunto que incomoda”, ela lembra, “e os próprios entrevistados são relutantes para falar”.



Ainda assim, Maria encarou a situação e o resultado, “Vale dos Esquecidos”, é sua estreia na direção de um longa-metragem – ela já trabalha há anos com audiovisual, mas só havia realizado curtas. E para fazer justiça ao projeto, ela se cercou de profissionais experientes. Felipe Braga (roteirista da série televisiva “Mandrake” e do filme “Cabeça a Prêmio”) assinou o roteiro ao lado de diretora. A direção de fotografia contou com o alemão, radicado no Brasil há quase duas décadas, Sylvestre Campe (“O Homem Pode Voar”). E a montagem foi feita por Jordana Berg, frequente colaboradora do documentarista Eduardo Coutinho (“Jogo de Cena”).

A opção pelo tema árido tampouco se baseou em inexperiência. Ao contrário, deve-se a ela ter passado grande parte da infância no interior e ver de perto as disputas de terra. Maria é testemunha ocular de como o desmatamento cresce a níveis assustadores no país.




“Acho que a questão ambiental está cada vez mais em voga. A disputa de terras em alguma instância tem muito a ver com este tema. O futuro da Amazônia tem muito a ver com estas questões”, declarou. E o cinema nacional parece estar de olho nessa situação e vem abordando com frequência o drama dos indígenas, a violência causada pelas disputas territoriais, a exploração mineral e a derrubada ilegal de árvores na Floresta Amazônica.

“Vale dos Esquecidos” é o mais direto, mas não é o único documentário a abordar o tema. Um dos pioneiros a levantar a questão foi “Nas Terras do Bem-Virá” (2007, de Alexandre Rampazzo), que também apontou os constantes crimes da região, como o Massacre de Eldorado dos Carajás, no qual 19 sem-terras foram mortos, e o assassinato da Irmã Dorothy Stang.




O assunto também vem aparecendo com frequência na ficção e em produções de grande porte, como “Xingu”, de Cao Hamburguer, sobre a luta dos irmãos Villas-Bôas pela instituição do famoso parque nacional indígena. “Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios”, de Beto Brant e Renato Ciasca, que também estreia nesta sexta (20/4), traz novamente a região como cenário.

Em 2013, duas produções sobre o tema devem chegar ao grande público. Heitor Dhalia (“O Cheiro do Ralo”) pretende abordar o mais conhecido garimpo do Brasil em “Serra Pelada”, com Wagner Moura (“Tropa de Elite”) no elenco, e a riqueza da floresta tropical será tema da megaprodução “Amazônia – Planeta Verde”, filmada inteiramente em 3D ao custo de R$ 30 milhões. O filme é uma coprodução com a França e o roteiro é de Luiz Bolognesi (“Bicho de Sete Cabeças”). Também estão previstas as adaptações dos livros “Órfãos do Eldorado” e “Relato de um Certo Oriente”, ambos do escritor Milton Hatoum. O diretor Guilherme Coelho (“Fala Tu”) está envolvido com o primeiro título, enquanto Marcelo Gomes (“Cinema, Aspirinas e Urubus”) deve dirigir o segundo.





A própria Maria Raduan pretende refletir um pouco mais o tema em seu próximo projeto, que irá pretende analisar o impacto do gado zebu na pecuária e na economia do Brasil, a partir de sua vinda da Índia, no século passado – sabe-se que um dos grandes causadores do desmatamento na Amazônia é o avanço da agropecuária na região.

Enquanto o governo brasileiro se empenha em conquistar para o Brasil um lugar de mais destaque no mundo, o cinema nacional ajuda a lembrar que o dever de casa nem sequer foi iniciado. Longe das capitais, o clima é mais Velho Oeste que País do Futuro, com ou sem aprovação do novo Código Florestal.










Por: Leonardo Vinicius Jorge (Pipoca moderna)

2 comentários:

  1. Quando assisti ao filme "O Vale dos Esquecidos", não tive dúvidas....as terras pertencem aos índios....

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  2. Baixar o Documentário - Vale dos Esquecidos - http://mcaf.ee/4bxe9

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