domingo, 29 de maio de 2011

Saga de soldados da borracha na Amazônia

BRASÍLIA — Esquecidos durante anos pelo governo brasileiro, os soldados da borracha mandados na década de 1940 foram para a Amazônia no chamado esforço de guerra do Brasil viraram notícia novamente. Em reportagem especial assinada pelos jornalistas Edson Luiz e Renata Mariz, do Correio Braziliense, a saga desses heróis é contada na série especial “Soldados da Borracha”.
As reportagens reproduzidas pela Agência Amazônia contam a saga desses brasileiros que trabalharam na Amazônia há mais de 70 e ainda lutam por seus direitos. Alguns desses heróis, ainda vivos, travam na Justiça uma batalha judicial para ter garantidos seus direitos de uma vida digna. Os soldados da borracha foram para a Amazônia, a pedido do governo de Getútilo Vargas, com a promessa de que iriam auferir benefícios financeiros. Até hoje eles estão à espera da ajuda federal.

DÍVIDA DE GUERRA 
Nordestinos que trabalharam na Amazônia há 70 anos ainda lutam por direitos

Em busca das honras e compensações prometidas quase sete décadas atrás, um grupo de 4 mil pessoas com mais de 80 anos poderá, finalmente, usufruir do que o governo se comprometeu a oferecer naquela época: fartura na Amazônia. Eles são os soldados da borracha, que, a partir de 1942, deixaram o Nordeste para cortar seringa na região, como parte do acordo fechado por Getúlio Vargas de fornecer a matéria-prima às forças aliadas durante a Segunda Guerra Mundial. No lugar de riqueza e progresso, os seringueiros “alistados” encontraram fome, escravidão, doenças e miséria. 
Hoje, exigem do Estado brasileiro uma indenização individual de R$ 763,8 mil, como reparação moral e material por tudo que passaram. A expectativa é de que a decisão da Justiça saia em breve. Embora a Advocacia-Geral da União (AGU) já tenha apresentado suas contestações, refutando o pedido, documentos históricos obtidos pelo Correio revelam que as autoridades esconderam dos recrutados as condições precárias tanto da viagem quanto da vida que os esperava na floresta. A partir de hoje, uma série de reportagens mostrará também o improviso que marcou todo o processo capitaneado pelo governo. 
Valia tudo para honrar o compromisso de fornecer 35 mil toneladas anuais de borracha aos Estados Unidos. Criar uma propaganda enganosa de recrutamento, confabular com autoridades locais, provocar o engajamento da Igreja Católica, deixar trabalhadores sem água ou comida depois de alistados. A reparação que os nordestinos julgam merecer pode vir de decisão da 2ª Vara Federal em Rondônia, que analisa, desde 2009, o processo movido pelo Sindicato dos Soldados da Borracha e Seringueiros do estado. A instituição representa atualmente 4 mil pessoas, sobreviventes de um exército maior, de 50 mil homens mobilizados à época. O chamado do governo os colocava em posição de destaque. “Ao nordestino, cabe uma tarefa tão importante como a do manejo das metralhadoras (…) impõe-se-lhe o dever de lutar nas terras abençoadas da Amazônia, extraindo borracha, produto indispensável para a vitória, como a bala e o fuzil”, dizia a propaganda.

A campanha efusiva de recrutamento divergia muito da postura do Brasil poucos meses antes, ainda indeciso sobre a conveniência de enviar homens para lutar nos fronts europeus. Só depois que submarinos nazistas atacaram os navios Buarque, Olinda e Cabedelo em águas brasileiras, matando 55 pessoas, foi que o governo saiu do clima de flerte com a Alemanha de Adolf Hitler e escolheu ficar do lado das tropas aliadas na Segunda Guerra. Também pesou na decisão a ajuda econômica prometida pelos Estados Unidos. A partir de 1942, milhares de soldados da borracha começaram a ser deslocados para a ainda desconhecida floresta. Dois anos depois, 25 mil pracinhas partiram para a Europa sob as bênçãos do governo, que em troca receberia dinheiro para construir, entre outras obras, a Companhia Siderúrgica Nacional. Alheio a tanta negociação, Adelmo Fernandes Freitas se alistou, aos 12 anos, com o pai.
Ele queria ser soldado da borracha, apesar de não saber como era a mata. Conhecia apenas a seca e a miséria do Nordeste. Aos 80 anos, Adelmo tem uma recordação clara da chegada ao Acre, em 1943, na companhia do pai, Manuel Pedro Fernandes, e de outros sertanejos. “Aquilo era uma vida de bicho”, define o ex-seringueiro, que passou 15 anos dentro da floresta. Ainda menino, ele sonhava ganhar muito dinheiro no seringal. A esperança de ter uma vida melhor, porém, durou só o tempo do trajeto entre o seu Ceará e as terras acrianas, cerca de três meses. Na chegada, já foi possível prever que o plano de enriquecer naquele mundo tão diferente de onde foi criado não passava de ilusão.
O trabalho era incessante. “Seis dias para cortar a seringa e, no sábado, a gente defumava a borracha”, lembra Adelmo. Alguns poucos domingos de folga tinham de ser aproveitados para garantir a sobrevivência nos dias seguintes. “A gente aproveitava o dia para recolher cocos e juntar cavaco para fazer fogo”, conta o soldado da borracha. Medo da floresta, ele garante que não tinha. O pavor vinha das doenças que mataram vários de seus companheiros. Uma delas é a malária, da qual foi vítima por várias vezes. “Até perdi as contas”, observa o senhor. Na falta de um tratamento e diante das condições precárias de vida, ele fazia qualquer coisa para tentar se livrar do mal-estar e das dores provocadas pela peste amazônica. “No barracão, não tinha uma pílula sequer. Quantas vezes tive que ir para o igarapé para aliviar a febre”, recorda o ex-seringueiro. 
Direitos esquecidos 
“Os soldados da borracha foram vítimas de violação dos direitos humanos e viveram em regime de escravidão”, sustenta o advogado Irlan Rogério Erasmo da Silva, que defende a categoria na ação judicial. “Por isso, o pedido de indenização é por dano moral. A outra alegação é o dano material, já que o governo dos Estados Unidos mandou dinheiro para o Brasil pagar os trabalhadores que seguiram para a Amazônia, mas os seringalistas, donos do seringais e também conhecidos por patrões, ficaram com os recursos”, explica Irlan.
Em sua defesa, a AGU argumentará que os fatos ocorreram na década de 1940, quando vigente a Constituição de 1937, e em período de guerra. Portanto, de acordo com a contestação, o pedido dos soldados da borracha não podem ser atendidos, já que se baseia na Constituição atual, de 1988. A União salienta ainda que os efeitos patrimoniais reclamados por meio da ação são sujeitos à prescrição e que não existe, nos autos em questão, provas dos prejuízos sofridos pelo autor, requisitos necessários em demandas dessa natureza. 
 
O conto do Seringal

Promessas de enriquecimento rápido e de apoio às famílias deixadas no Nordeste faziam parte das artimanhas usadas pelos recrutadores para convencer sertanejos a trabalharem na Floresta Amazônica 
Classificados em relatórios oficiais de "desconcertantes e estúpidos", os boatos de índios que devoravam homens ou de que trabalhadores seriam vendidos a preço de ouro na floresta precisavam ser eliminados da cabeça do sertanejo. Não bastavam os conclames do presidente Getúlio Vargas dirigidos aos soldados da borracha, que "lutariam" na Segunda Guerra Mundial tirando seringa das árvores para abastecer as tropas aliadas com a matéria-prima. Foi preciso prometer muito mais. Dirigida à maioria analfabeta, a cartilha de recrutamento do governo apresentava, por meio de desenhos, feitos pelo artista plástico suíço Jean-Pierre Chabloz, uma nova Amazônia. "Pedaço do Brasil que não é mais o inferno verde, mas, atualmente, a terra da promissão", mentia o material publicitário, divulgado a partir de 1942.
Além das cartilhas, cartazes foram espalhados em cidades devidamente escolhidas — com base na época de maior ou menor desemprego — do Piauí, Maranhão e principalmente Ceará. Coordenada pelo Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia (Semta), órgão criado por Vargas, a propaganda prometia toda a pesca e caça, 60% da produção da borracha e muitas outras vantagens. Mas ainda esbarrava na desconfiança do "caipira", como eram chamados os nordestinos pelas autoridades em cartas confidenciais. Relatório de um médico que selecionou 217 homens, no período de um mês, em municípios cearenses, revela alguns dos artifícios usados no recrutamento, como um acordo com o empregador local para que dispensasse os funcionários solteiros, mais propensos a se tornarem soldados da borracha, e contratasse os casados. 
Aproveitando-se da paralisação do serviço industrial da carnaubeira cearense durante o inverno, no Vale do Jaguaribe, o médico ressalta, em certa altura do relatório, que 15 homens se alistaram "com a condição de serem alimentados até o dia do embarque". O fato é que, para muitos, devido à realidade precária do sertão, a única saída foi acreditar nas maravilhas que os esperavam na floresta. Até mesmo quem tinha um pouco de condição financeira sonhava com uma vida melhor. "Vi a floresta pelo jornal e achei bonita. Além disso, diziam que a borracha dava dinheiro", conta João de Deus Alencar, hoje com 88 anos. "Me arrependi. Se estivesse ficado lá no Ceará, minha terra natal, minha vida seria outra", ressalta.
Considerado uma pessoa que tinha um "saberzinho", já que seu grau de escolaridade era o equivalente à quinta série atual, João de Deus deixou a companhia dos militares americanos — com quem trabalhava — pela dos arigós, alcunha dada aos sertanejos que chegavam à Amazônia. Filho de um oficial do Exército, ele era recruta quando decidiu dar baixa para enfrentar a floresta. Nada sabia sobre a seringa até ser treinado no Pará, depois da viagem de navio. "Eles colocavam um tronco para que a gente treinasse a extração do leite", lembra o soldado da borracha. 
Como todos os outros homens recrutados, João recebeu, ao se alistar, um kit de viagem, composto de roupa, alpercata, chapéu, mochila, rede, prato fundo, caneco, garfo e colher. Além de assistência à saúde, deslocamento seguro e confortável, comida saudável, as promessas durante a campanha de mobilização incluíam o valor de Cr$ 6 (seis cruzeiros) diários, caso o soldado não prestasse serviços, e Cr$ 10 (dez cruzeiros) por dia de trabalho. A família do combatente da borracha também estaria protegida, de acordo com os compromissos assumidos pelo governo em documentos oficiais. Ninguém poderia imaginar que depois das privações ao longo da viagem, eles seriam enquadrados numa espécie de regime de escravidão.
Empregadores locais, líderes da comunidade e párocos eram os incentivadores não governamentais, mas com grande influência, do alistamento dos nordestinos. Carta de dom Helder Câmara, naquele momento chefe do Departamento de Assistência Religiosa, um dos setores do Semta, deixava claro que havia uma certa resistência dos religiosos da região. Mas explicava, em seguida, que os bispos e arcebispos decidiram dar suporte à mobilização por medo de perderem espaço para os padres e pastores norte-americanos. "Vindos de país rico e progressista trariam recursos técnicos e financeiros nada desprezíveis", escreveu dom Helder, repetindo o que tinha ouvido dos párocos da região, em relatório de janeiro de 1943. 
O artista 
Contratado pelo Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia, o suíço Jean-Pierre Chabloz era o chefe da Divisão de Desenhos Publicitários da Campanha Nacional da Borracha. Ele criou cartazes e cartilhas para ajudar no recrutamento. Montou também, com seus traços, desenhos do biotipo do nordestino, para ajudar os médicos na seleção. E foi a Belém para ver de perto a extração do látex, em seguida representando-a por meio de desenhos.
Confira aqui o hotsite da série Soldados da Borracha

Fonte:  Correio Braziliense

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