segunda-feira, 4 de julho de 2011

Encontro entre Confúcio e Lao Tzu (segundo Chen Sien Tchoan)


Lao Tsé, sábio ilustre, morava às margens do Rio Lo. Sua doutrina, “Tao to tsing” ( Laço das Virtudes e do Método), parecia estranha e era incomprendida pelo povo. Por esta razão, o soberano do Estado de Lu decidiu solicitar o concurso de Confúcio, que deveria procurar “o Velho”(assim era o apelido que tinha, devido ao fato de seus cabelos serem brancos desde a juventude) e dele receber conselhos e, se possível, alguns dos segredos que tornavam mais poderosos os membros da dinastia Chou.

Li Tan, nome verdadeiro de Lao Tsé, abandonara a convivência dos homens havia muito tempo e refugiara-se nas montanhas, vivendo em solidão. Tinha na ocasião cerca de setenta anos de idade e morava numa choupana de madeira nas proximidades do Rio Lo.

Levando presentes e companheiros, Confúcio, depois de longa viagem, chegou ao bosque em que residia “o Velho”.

Para maior fidelidade, transcreve-se aqui a íntegra de uma das versões da entrevista. Todas têm o mesmo sentido embora nem todas usem as mesmas palavras.

Confúcio: - "Meus olhos estão turvos e não posso confiar-me neles. Vejo-te como uma árvore seca, abandonada de todos e a viver solitária”.

Lao Tsé: - “Sim; abandono meu corpo enquanto viajo sem parar pelas origens das coisas. Mas que desejas?”.

Confúcio:- “Venho em busca de uma doutrina que possa melhorar a sorte dos seres humanos; um método para instruí-los e transformá-los
.

O Velho sorriu e adjuntou:
- "Os animais que se alimentam de ervas procuram por acaso melhorá-las? Os seres que vivem na água se preocupam em que ela seja melhor? E falas-me em melhorar os seres humanos".

- “Eles sofrem e eu quería fazê-los felizes".

- “Se a alegria e os pesares, se o descontentamento e a satisfação não perturbassem o espírito dos homens, estes se pareceriam então com o universo. A fronteira entre a felicidade e a desgraça desapareceria. Quando os homens compreenderem que o seu bem maior é serem semelhantes a todos os outros seres vivos serão felizes e não poderão perder esse bem : transformar-se-ão sem procurar fixar-se.”

- Confúcio objetou :
-“Por tua virtude, unirias Céu e Terra. Mas a palavra, pela qual se modifica o espírito, e a nós transmitida pelos sábios antigos, é possível despojar-nos dela?".
- “Quando se trata do homem, com efeito, há que considerar que sua carne e seus ossos perecerão e se dissolverão, ao passo que suas palavras podem ser transmitidas enquanto existerem seres humanos".

- Lao Tsé refletiu e continuou :
- “Mas sem desembaraçar-nos da palavra, basta praticar o Não-Agir (Wu wei) para que nossos verdadeiros talentos por si mesmos se revelem. Se o homem jamais procurasse modificar as coisas, estas não se alterarian por si mesmas; a terra é compacta por sua própia natureza; o sol e a lua, que brilham por si, pretendes modificá-los também?".

- E acrecentou :
- “Para conservar-se branca, a cegonha não precisa lavar-se; nem o corvo, tingir-se de negro. Por que os homens teriam necessidade de estudar e inventar para penosamente modificar-se? De que lhes serviria isto?  Seria o mesmo que tocar o tambor para fazer ressuscitar um carneiro".

Lao Tsé mudou de asunto e perguntou a Confúcio quais as tradições que estudara.
Respondendo que havia dedicado horas ao estudo de “ I tsing “ e o “Laço das Mutações”, que ancestrais sagrados haviam estudado, Lao Tsé afirmou:

- “Esses princípios são a Eqüidade e a Reciprocidade, admiráveis regras sem dúvida".
- “Certo. Em minha opinião, porém, esses princípios, não são admiráveis. Do mesmo modo que os mosquitos, que durante a noite não nos deixam dormir e nos picam, Eqüidade e Reciprocidade não servem senão para conturbar e irritar o coração do homem. Com esses princípios, transtorna-se o caráter do povo, eis tudo. Não se mudará em nada o seu infortúnio".

Indagou, Lao tsé, se Confúcio havia elaborado alguma doutrina e este declarou :
- “Desde os vinte e sete anos estou em busca de uma e ainda a não encontrei".

O Velho disse então:
-“Vou dar-te quatro que são universalmente seguidas. A primeira : deixar-se tomar, e os homens deixam tomar-se; é a doutrina que os senhores ensinan. A segunda ordena deixar-se importunar e todos os homens deixam importunar-se; é a doutrina ensinada pela familia. A terceira manda acusar-se mutuamente e brigar uns com os outros, e todos os homens acusam-se uns aos outros; é a doutrina da fraternidade. Finalmente, a quarta determina trabalhar sem proveito para transmitir uma instrução vã e transmite a instrução; é a doutrina dos letrados. Não se pode delas escapar nem encontrar outras".

- “Apesar disto, os sábios elaboraram doutrinas e tu mesmo”...

Interrompeu-lo Lao Tsé :
- “Quando um Sábio chega ao momento de triunfar, ele trinfa. Atê que le surja a ocasião, permanece sem influência. Da mesma maneira que a melhor semente, quando ainda não germinou, fica escondida debaixo da terra que parece nua.

Levantando-se cortesmente para companhar o visitante, “o Velho” finalizou :
- “ Sempre ouço dizer que as pessoas ricas ou poderosas ao despedir-se dos hóspedes lhes oferecem objetos de valor; aquelas que têm apenas ciência proferem palavras preciosas. Não sou rico nem poderoso e roubaria o renome de sábio. Não obstante, posso dizer-te isto : os homens inteligentes, os dotados de visão profunda das coisas, e mesmo aqueles que se avizinham do fim da vida gostam de criticar tudo e todos. Desse modo, porém, colocam em perigo o próprio corpo e atraem sobre si o ócio dos demais. Nada ganha o Sábio que se mistura no meio dos homens, mas pode tudo perder o ministro que o faz".

Confúcio despediu-se e partiu para Lu, na manhã seguinte e durante três dias não disse palavra. Intrigado com o prolongado silêncio cheio de meditação, um discípulo dirigiu-se com perguntas ao Mestre. E ele respondeu:

- “Acabo de ver um homem que alça a grandes alturas os seus pensamentos, que mais se assemelham ao voar de pássaros no azul. De minha parte, gosto de lançar os meus, um a um, como dardos de alabarda, sem errar jamais o alvo. Gosto que meus pensamentos fiéis sigam um caminho sempre rasteado e alcancem sempre a presa. Acabo de ver um homem cujas idéias sào tão misteriosas e inacessíveis como um abismo. Gosto que minhas idéias possam ser pescadas na ponta de uma linha e satisfaçam. Dos pássaros, sei que podem voar: é o que os distingue. Os peixes, sei, podem nadar; os quadrúpedes , galopar. Mas, sei também que posso pegar com uma armadilha o que galopa; com rede o que nada e, com flechas, o que voa. Com referência aos dragões, se eles voam com a tempestade ou cavalgam as nuvens na imensa pureza do céu. Vi Lao Tsé como quem contempla um dragão. O queixo caiu-me e não pude respirar. Meu espírito, extraviado, não sabia onde pousar".

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