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domingo, 16 de setembro de 2012

Aquarela sobre Fotografia, retratando a natureza


Aquarela sobre Fotografia, de Rubens Matuck e João Capobianco



Os olhos de João Capobianco são olhos fascinados. Alimentado de belezas selvagens, o fotógrafo busca paraísos em veredas raras, destinos de um Brasil desconhecido. Em seu trabalho, as cores da Chapada do Araripe, no nordeste, o verde inebriante da Mata Atlântica, o ocre da Caatinga, a magnitude do canyon do Guartelá, no Paraná, e tantos outros caminhos que formam o caleidoscópio do artista paulistano. 

As imagens documentais ganham a intervenção lúdica dos pincéis do artista plástico Rubens Matuck, parceiro nas viagens pelo país. Do encontro das duas linguagens, sugiram as obras da mostra “Aquarela sobre fotografia”, em cartaz na Kamara Kó Galeria. Sob curadoria de Rosely Nakagawa, a exposição reúne 25 fotografias escolhidas em meio aos livros de viagens da dupla paulista, que percorre regiões isoladas do Brasil.

Há mais de uma década, as cores do artista plástico Rubens Matuck inebriam de lirismo a fotografia documental de João Capobianco. Desde 1997, a dupla atravessa veredas pelo Brasil desconhecido, aquele guardado distante dos olhos. Entre seus insistentes destinos, a Amazônia, onde tudo começou. “Aldemir Martins, artista, quando me viu, um pobre iniciante paulista cheio de arrogância, disse: ‘vá viajar pelo Brasil. Para um artista se formar, precisa conhecer sua terra’. Assim, de madrugada, cheguei a Belém”, lembra Rubens sobre sua visão primeira da cidade paraense, ainda em 1985. Desde então, o artista volta sempre, mas nunca se depara com o mesmo. “Sinto que preciso de muitas vidas para começar a apreender um pouco desta imensidão que se descortina sempre que visito a Amazônia”. Sob curadoria de Rosely Nakagawa, uma preciosa compilação dos registros de viagens da dupla compõe a exposição “João Paulo Capobianco e Rubens Matuck – Aquarela sobre fotografia”, em cartaz do dia 14 a 29 de setembro na Kamara Kó Galeria, Belém/Pará.

São fotografias captadas na Amazônia e imagens de palmeiras de buriti, onde a dupla compartilha experiências profundas com a floresta e seus povos. “Uma série de viagens, por exemplo, para Altamira, onde fiz dois livros infantis na aldeia Arawete: O Gavião e A Pescaria”, conta Matuck, que mergulhou no universo indígena em expedições das mais diversas, como quando integrou a comitiva do cantor Milton Nascimento pelo Acre em busca de material musical para o disco Txchai. “Cresceu muito minha admiração por estas pessoas que vivem na Amazônia, por seus migrantes nordestinos e sua grande influência cultural, assim como a participação da exuberante cultura portuguesa, além da força da tradição dos povos indígenas. Tudo isso aliado ao poder transformador da fotografia como instrumento artístico e incorporado ao processo de artes plásticas no meu trabalho e do trabalho de João Paulo Capobianco”, declara Matuck.


No projeto, que consiste na realização de viagens anuais para documentar locais marcados por sua singularidade socioambiental, são registrados traços ecológicos, culturais, sociais e paisagísticos de localidades únicas. O produto desse trabalho, realizado nos últimos 15 anos, rendeu uma exposição, calendários, e a publicação do livro “Brasil que Resiste”, em 2002. “São lugares que nos impactam de forma radical pelas espetaculares e infindáveis variações de paisagens, fauna e flora e suas relações com o homem que as interpreta e com elas se relaciona de forma diversa, às vezes inusitada e sempre surpreendente. Vivenciar e, depois, revelar esse Brasil profundo é o que nos mobiliza”, diz Capobianco.

Sobre os artistas

Rubens Matuck (São Paulo, SP, 1952) é ilustrador, gravador, pintor, escultor, desenhista, designer gráfico, professor. Formou-se em arquitetura pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, em 1977. Na década de 1980, completa a sua formação com cursos de fotogravura, com Thereza Miranda; de linguagem fotográfica, com Cláudio Kubrusly; de fabricação de papel artesanal, com Otávio Roth; e de pintura a óleo, com Jorge Mori. Entre 1968 e 1994, trabalha como ilustrador para diversos jornais e revistas, como Última Hora, Jornal da Tarde, Folha da Tarde, O Estado de S. Paulo, Playboy, Visão, Exame, Claudia, IstoÉ, entre outros. Produz logotipos, trabalhos de tipografia, além de ilustrações e capas para livros infantis. Em 1979, funda a Editora João Pereira, em São Paulo, com Feres Lourenço Khoury, Luise Weiss e Rosely Nakagawa. Escreve e ilustra uma série de livros infantis, como O Cerrado, O Pantanal, A Amazônia, série de 1987; Tudo É Semente, 1993, com Carlos Matuck; Plantando uma Amizade, 1996; Aldemir Martins, 1999, com Nilson Moulin. Em 1993, recebe o Prêmio Jabuti pela ilustração do livro infantil O Sapato Furado, de Mario Quintana.


João Paulo Ribeiro Capobianco (São Paulo, SP, 1957) é biólogo e ambientalista. Iniciou suas atividades na área da fotografia no final dos anos 70. A partir de 1985 começou seus experimentos na documentação de meio ambiente. Dentre estes trabalhos, destacam‑se os audiovisuais e exposições fotográficas nas décadas de 80 e 90: "Fauna Brasileira", sobre animais em extinção, que funde imagens de animais na natureza com desenhos dos mesmos animais retratados pelo artista plástico Rubens Matuck; "Juréia", utilizado intensamente pelo movimento de criação da Estação Ecológica de Juréia-Itatins; e, "Lagamar" sobre a região Estuarino Lagunar de Iguape-Paranaguá, utilizado pela campanha de lançamento da Fundação SOS Mata Atlântica. 

Além de seu trabalho na área da fotografia, Capobianco tem tido intensa atuação como ambientalista. Foi Secretário Nacional de Biodiversidade e Florestas e Secretário Executivo do Ministério do Meio Ambiente (2003 a 2008), professor visitante da Universidade de Columbia (2008 a 2009) e pesquisador associado do Ipam – Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, no mesmo período.

A mostra dedicada aos registros captados na Amazônia, destino dos artistas desde a década de 80. Foi na floresta onde tudo começou. O trabalho dos parceiros rendeu calendários e a publicação do livro “Brasil que Resiste”, de 2002. Sobre a experiência entre povos indígenas e os paraísos contraditórios escondidos pelo país, a dupla comenta:

São quinze anos percorrendo o país. O que mais surpreendeu nessa longa trajetória?

Capobianco: É impossível dizer o que mais nos fascinou. A fantástica história do seu Toinho, um vaqueiro que dedicou anos de sua vida ao monitoramento voluntário e permanente do último exemplar da arara-azul vivendo em liberdade. A luta permanente dos defensores da Chapada do Araripe, com seus incríveis fósseis e onde a Mata Atlântica floresce em meio a Caatinga. Ou os quilombolas do Vale do Ribeira em meio à luta por conservar a floresta e conquistar seus direitos territoriais negados desde os tempos da escravidão, e isso há menos de duzentos quilômetros de São Paulo, a maior metrópole da América Latina. Tudo é surpreendente.

Visões de um caminhante incansável (Foto: Divulgação)

A Amazônia é o tema central da mostra “Aquarela sobre fotografia”. Como foi a primeira experiência de vocês na maior floresta tropical do mundo?

Matuck: Vim pela primeira vez a convite de duas pessoas de vital importância para a cultura amazônica atual: Luiz Braga e Milton Hatoum. A viagem foi patrocinada por um dos artistas que mais conhecem e percorrem o Brasil: Aldemir Martins, que me disse: ‘vá viajar pelo Brasil. Para um artista se formar, precisa conhecer sua terra’. Assim, desembarquei em Belém, em 1985, de madrugada, e fui recebido por Luiz Braga como hóspede em sua casa. Foi realmente um grande prazer conhecer Luiz e seu mundo: as feiras, o Ver-o-Peso e toda aquela natureza deslumbrante da Amazônia.

Capobianco: A minha primeira vez foi em 1990, quando estive em Manaus para um evento preparatório para o Rio 92. Confesso, entretanto, dei a minha contribuição o mais rápido possível a fim de sobrar tempo para pegar um barco e subir o Rio Negro para ver de perto o que já existia em minha fantasia. E não me decepcionei, tanto que alguns anos depois, em 1994, participei da criação do Instituto Socioambiental e passei a me dedicar a projetos de promoção e conservação da diversidade cultural e ambiental da Amazônia.

O que há de tão particular na atmosfera amazônica?

Matuck: Integrei a comitiva do cantor Milton Nascimento pelo Acre em busca de material musical para o disco Txchai. Nesta viagem, percebi as particularidades da Amazônia. Cresceu muito minha admiração por estas pessoas que nela vivem, por seus migrantes nordestinos e sua grande influência cultural, assim como a participação da exuberante cultura portuguesa, além da força da tradição dos povos indígenas.

O que seria esse Brasil “perdido” que vocês buscam há tanto tempo?

Capobianco: São os lugares que representam a profunda diversidade natural, cultural e ambiental do Brasil. Lugares que nos impactam de forma radical pelas espetaculares e infindáveis variações de paisagens, fauna e flora e suas relações com o homem que as interpreta e com elas se relaciona de forma diversa, às vezes inusitada e sempre surpreendente. Vivenciar e, depois, revelar esse Brasil profundo é o que nos mobiliza. 





BRASIL QUE RESISTE
Formato: Livro
Autor: MATUCK, RUBENS
Autor: CAPOBIANCO, JOAO PAULO RIBEIRO
Editora: TERCEIRO NOME
Assunto: ARTES








PRESTIGIE

Mostra “Aquarela sobre fotografia” de Rubens Matuck e João Paulo Capobianco, na Kamara Kó Galeria (tv. Frutuoso Guimarães , 611, Campina), até o dia 29. Entrada franca. 

Exposição

• Abertura da exposição (Belém/Pará, Travessa Frutuoso Guimarães , 611, Campina), 14 de setembro, às 19h30. 
• Visitação de 15 a 29/09, de 15h às 19h (terças, quartas, quintas e sextas), e de 10h às 13h (sábados). 
• A exposição é uma realização da Kamara Kó Galeria, com patrocínio da BLB Eletrônica, apoio institucional da Lei Tó Teixeira e Guilherme Paraense, FUMBEL e Prefeitura de Belém, apoio da Gráfica Sagrada Família, e Construtora Construcap. 
• Informações e agendamentos: 91.32614809 | 91.32614240 [ kamarakogaleria@gmail.com | www.kamarakogaleria.com/site ]

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Desmatamento zero na Amazônia é possível até 2020, diz governador do Pará


Desmatamento zero na Amazônia é possível até 2020, disse nesta quinta-feira (14/6) o governador do Pará, Simão Jatene, durante um debate sobre políticas públicas de combate ao desmatamento da Amazônia, no Forte de Copacabana, zona sul da capital fluminense.

“Já assinamos a redução do desmatamento em 80% até 2020, mas acho que podemos, sim, assumir desmatamento zero líquido. É possível intensificar a utilização das áreas abertas e modernizar pelo menos metade da pecuária em um curto espaço de tempo sem grandes custos.”

De acordo com o governador, existem hoje cerca de 33 milhões de hectares de áreas abertas (desmatadas) da Floresta Amazônica no estado. Desse total, cerca 1,5 milhão de hectares são usados para a produção agrícola. Cerca de 31 milhões estariam, segundo ele, ocupados pela agropecuária, abandonados ou subutilizados.

“O uso dessa área já aberta é muito baixo e podemos elevar a produtividade, mas precisaremos experimentar o que chamo de tripla revolução, que é pelo conhecimento, pela produção e por novas formas de gestão e governança e alguns municípios estão provando que isso é possível.”

O pesquisador da Fundação Imazon Adalberto Veríssimo acredita que o desmatamento zero no Pará é possível e, se for concretizado, vai gerar mais renda e emprego para a região. “Conseguimos reduzir, em três anos, 50% do desmatamento e, hoje, a sociedade está cada vez mais consciente de que não é preciso desmatar mais para crescer. É possível manter a floresta e aproveitar bem todas as áreas que já foram desmatadas, que são muitas.”

O Programa Municípios Verdes (PMV) implantado pelos governos estadual e federal há pouco mais de um ano foi abordado pelos palestrantes como ferramenta fundamental para a redução do desmatamento ao auxiliar os municípios do estado a promover uma economia de baixo carbono e alto valor agregado, com incentivos para negócios rentáveis e ambientalmente sustentáveis e criação de pactos entre a iniciativa privada, a população e o terceiro setor.

“O protagonismo local é o diferencial desse programa. Temos ambientalistas e pecuaristas participando, pessoas ligadas ao setor madeireiro florestal, Ministério Público, instituições do estado e município e a sociedade local. É fundamental que o desenvolvimento sustentável saia do papel e entre no cotidiano das pessoas”, completou o governador.

O procurador do Ministério Público, Daniel Azeredo, elogiou o Cadastro Ambiental Rural que ganhou força com o Programa Municípios Verdes. “O cadastro realiza o zoneamento das propriedades no Pará e o controle ambiental da Amazônia tem ajudado como uma ferramenta de gestão da Amazônia”, comentou o procurador. Ele acrescentou que, por meio de benefícios aos produtores, o número de propriedades cadastradas subiu de cerca de 600 em 2009 para 54 mil propriedades em 2012.

“O acesso ao crédito rural só é dado para aqueles que estão no cadastro, além disso, o produtor ganha segurança jurídica, regularização fundiária e com os Municípios Verdes houve uma adesão maciça.”

“Temos condições de devolver para a floresta de 20% a 30% das áreas hoje abertas que têm baixa produtividade para a agropecuária e que foram abertas equivocadamente”, comentou o presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Paragominas, Mauro Lucio, município paraense que esteve, até 2010, no primeiro lugar da lista negra de desmatamento do governo federal e hoje é o que mais faz reflorestamento no estado. O município também tem apresentado os melhores resultados na queda do desmatamento da Amazônia. “Mas isso só foi possível porque investimos em tecnologia e melhoria de vida. Sem melhorar a qualidade de vida das pessoas da região, falar em sustentabilidade é conversa fiada. Crédito sem conhecimento é jogar dinheiro fora, por isso, investir em conhecimento é o que vai mudar os padrões de vida.”


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