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quinta-feira, 7 de junho de 2012

A esperança - A cura da Terra já existe

 

O Ártico alcançou uma concentração recorde de dióxido de carbono de 400 partes por milhão (ppm). A última vez que a Terra registrou níveis semelhantes foi há três milhões de anos, durante a era do Plioceno. Então, as temperaturas do Ártico eram entre 10 e 14 graus mais altas e, as globais, quatro graus mais elevadas. Nesta primavera boreal de 2012, todos os centros de pesquisa no Alasca, na Groenlândia, Noruega, Islândia, e inclusive Mongólia, registraram níveis superiores à barreira dos 400 ppm pela primeira vez, informaram cientistas.

Entretanto, a média mundial é de 392 ppm, e para chegar aos 400 ainda falta muito. Se os níveis de dióxido de carbono (CO²) não baixarem, ou, pior, aumentarem, o planeta inevitavelmente alcançará temperaturas mais altas, e para isto não serão necessários milhões de anos. Se não houver grande redução nas emissões de gases gerados por combustíveis fósseis, quem nascer hoje poderá viver em um mundo superaquecido em quatro graus quando for adulto. Este aumento fará com que a maior parte da Terra fique inabitável. Um mundo mais quente significará a morte para muitas pessoas no mundo, afirmou Chris West, do Programa de Impacto Climático, da britânica Universidade de Oxford.

No início de junho, a Agência Internacional de Energia (IEA) informou que as emissões mundiais de CO² cresceram 3,2% em 2011, com relação a 2010. Esta é precisamente a direção errada: as liberações de gases devem diminuir 3% ao ano para se ter alguma esperança quanto a um futuro de clima estável. Até 2050, em um mundo com mais habitantes, as emissões de carbono deveriam cair pela metade.Isto é impossível? Não. Várias análises diferentes mostram como isso pode ser alcançado.

Por exemplo, a consultoria holandesa Ecofys publicou em 2010 um estudo técnico intitulado O Informe de Energia, no qual demonstra como o mundo poderia usar somente fontes renováveis até 2050. O Greenpeace tem um plano denominado (R)evolução Energética, e a Agência Internacional de Energia conta com o seu próprio estudo, chamado Cenário 450. Não existe carência de conhecimento técnico sobre como reduzir as emissões.

Alguns países já começaram a tomar medidas. A Alemanha obteve mais de 30% de sua energia com a luz solar de um único dia claro na última semana de maio. Em lugar de utilizar suas 20 ou mais centrais de carvão, este país empregou energia de mais de um milhão de painéis solares localizados em casas, edifícios e ao lado de estradas. Embora não se caracterize por ter um clima quente, a Alemanha conta com mais painéis solares do que o resto do mundo somado. Atende 4% de suas necessidades anuais de eletricidade graças à energia solar. Inclusive, poderia aumentar sua produção solar entre 5% e 10%, segundo especialistas, sobretudo graças às últimas reduções no custo dos painéis - leia mais sobre este assunto neste link -.

A diferença na Alemanha é a liderança. A revolução das energias renováveis nesse país foi iniciada em 2000, pelo então ministro da Economia, Hermann Scheer, que promoveu durante anos esta política para impedir que os sucessivos governos a deixassem de lado. Morreu repentinamente em 2010, mas outros líderes alemães, apoiados por grupos ambientalistas e pelo público em geral, continuam pressionando por mais apoio às energias renováveis.

A chefe de governo, Angela Merkel, reverteu sua política de apoio ao setor nuclear depois do acidente na central japonesa de Fukushima, no ano passado. A Alemanha anunciou que fechará suas 17 usinas atômicas até 2022 e adotou o ambicioso plano de energias renováveis chamado Agora Energiewende. Se obtiver sucesso, o programa fará com que pelo menos 40% da energia do país proceda de fontes renováveis, até 2022. Representantes do poderoso setor energético expressaram seu descontentamento com o plano de Merkel, e a chanceler disse que precisará de forte apoio público para seguir adiante.

O setor das energias renováveis na Alemanha emprega mais pessoas do que o automotivo. No mundo, as energias renováveis empregam atualmente cerca de cinco milhões de trabalhadores, mais do que o dobro no período de 2006-2010, segundo estudo divulgado na última semana de maio pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). A passagem para uma economia verde poderá gerar entre 15 milhões e 60 milhões de empregos adicionais em todo o planeta nas próximas duas décadas, podendo tirar milhões de pessoas da pobreza, afirma o estudo Trabalhando para um Desenvolvimento Sustentável.

Apenas entre dez e 15 indústrias respondem por 70% a 80% das emissões de CO² nos países industrializados, destaca o informe. E estas indústrias empregam apenas de 8% a 12% da força de trabalho. Mesmo adotando políticas para conseguir grandes reduções das emissões, apenas uns poucos perderiam seus empregos. "A sustentabilidade ambiental não mata empregos, como às vezes se diz", ressaltou o diretor-geral da OIT, Juan Somavia. "Pelo contrário, se é manejada de forma adequada, pode derivar em mais e melhores empregos, em redução da pobreza e inclusão social", acrescentou.



Fontes:
Envolverde - IPS
Stephen Leahy, da IPS

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Os Índios isolados da Amazônia Peruana

Uma mulher Nanti no sudeste do Peru. © Anon

Os Índios isolados


Em risco de extinção devido a doenças e perda de terras. Nas áreas mais remotas da Amazônia peruana vivem tribos que não têm contato com o mundo exterior. Madeireiros ilegais e petroleiras estão invadindo suas terras e trazendo doenças.

Eles não sobreviverão, a menos que isso pare.

A Survival estima que existam 15 tribos de índios isolados no Peru. Todas vivem nas mais remotas regiões da floresta amazônica.


Incluem-se as tribos:

  • Cacataibo 
  • Isconahua, 
  • Matsigenka, 
  • Mashco-Piro, 
  • Mastanahua, 
  • Murunahua (ou Chitonahua), 
  • Nanti  
  • Yora.

Um grupo Nanti no Peru. © Survival


Quase todos os índios isolados são nômades, que atravessam a floresta de acordo com as estações do ano em pequenos grupos familiares.

Na estação chuvosa, quando os níveis de água são elevados, as tribos, que geralmente não usam canoas, vivem longe dos rios, floresta a dentro.

Durante a estação seca, no entanto, quando os níveis de água são baixos e praias surgem na beira dos rios, eles acampam nas praias e pescam.




Uma vasta quantidade de evidências, incluindo imagens de vídeo, material de áudio, fotografias, objetos, depoimentos e entrevistas, foram coletados ao longo dos anos.

Por exemplo, em 18 de setembro de 2007 um avião fretado pela Sociedade Zoológica de Frankfurt em busca de madeireiros ilegais voou sobre uma parte remota da floresta tropical no sudeste do Peru.

Flechas pertencentes a índios isolados, coletados no sudeste do Peru. © <span class="caps">FENAMAD</span>
Flechas pertencentes a índios isolados, 
coletados no sudeste do Peru.


Por acaso, depararam-se com um grupo de vinte e um índios, provavelmente membros da tribo Mashco-Piro, em um acampamento de pesca temporária na margem do rio.

Apenas seis semanas após o avistamento, o presidente do Peru, Alan Garcia, escreveu em um artigo de jornal que os índios isolados eram ‘criação dos ambientalistas’ que se opõem à exploração de petróleo.


 © Survival


Ameaças múltiplas

Todos esses povos enfrentam ameaças terríveis – às suas terras, aos meios de subsistência e, finalmente, às suas vidas. Se nada for feito, é provável que eles desapareçam totalmente.

Tribos isoladas são extremamente vulneráveis a qualquer tipo de contato com forasteiros, pois elas não apresentam imunidade contra doenças ocidentais.

Leis internacionais reconhecem aos índios o direito à terra, como também reconhecem o seu direito de viver em suas terras da maneira que desejarem.

As maiores ameaças aos índios isolados no Peru são os madeireiros ilegais e as empresas petroleiras.

Mais de 70% da Amazônia peruana foi concessionada a companhias de petróleo pelo governo, incluindo muitas regiões habitadas por tribos isoladas.

A exploração de petróleo é particularmente perigosa para os índios porque facilita o acesso a áreas anteriormente remotas para forasteiros, tais como madeireiros e colonos. Eles passam a utilizar as estradas e caminhos abertos pelas equipes de exploração.


Sinais de madeireiros ilegais, que são uma ameaça ao habitat e bem-estar das tribos isoladas. © David Hill/SurvivalA exploração de madeireira ilegal representa uma grande ameaça para os povos isolados. © David Hill/Survival
Sinais de madeireiros ilegais, que são uma ameaça ao habitat e bem-estar das tribos isoladas.



Após o primeiro contato, é comum que mais de 50% dos membros de uma tribo morra. Às vezes, todo o grupo perece.

Essas leis não estão sendo respeitadas pelo governo peruano e pelas empresas que estão invadindo terras indígenas.


Isolados por uma boa razão
Recentemente contatado homem Mastanahua, Curanja, Rio Peru. © David Hill/Survival
homem Mastanahua, Curanja, Rio Peru


Tudo o que sabemos sobre os índios isolados deixa claro que eles procuram manter seu isolamento. Nas raras ocasiões em que eles são vistos ou encontrados, eles deixam claro que preferem o isolamento. Às vezes, eles reagem de forma agressiva para defender seu território ou deixam sinais na floresta alertando que não querem contato.

Os índios foram vítimas de violência e doenças trazidas por pessoas de fora no passado. Para muitos, este sofrimento continua até hoje. Eles têm bons motivos para não querer contato.

De acordo com a Survival, os Mashco-Piro são uma das tribos isoladas que já foram detectadas ao redor do mundo (são cerca de cem). Entretanto, a organização afirma que está cada vez mais difícil de visualizá-los dentro do parque. Atividades madeireiras e de extração de gás e petróleo na região podem causar dificuldades à pesquisa -- com medo, eles entram para mata fechada.



 © Survival
 © Survival
 © Survival © Survival
Mashco-Piro


A Survival está urgindo para que o governo peruano proteja os índios isolados, não permitindo que qualquer exploração de petróleo, extração de madeira ou outra forma de extração de recursos naturais ocorra em suas terras.

Em 2011, o Departamento de Assuntos Indígenas do Peru anunciou a criação de um posto de guarda na área para proteger os índios e a população, já que o primeiro contato pode ser perigoso para ambas as partes, afirma Stephen Cory, diretor da Survival.

O governo deve reconhecer os índios como os proprietários de suas terras.

Depois de uma campanha da Survival na década de 1990, em colaboração com a organização indígena peruana FENAMAD, a companhia petrolífera Mobil foi retirada de uma área habitada por tribos isoladas no sudeste do Peru.

Survival - O movimento pelos povos indígenas
Ajude-nos a lutar pelos direitos dos povos mais vulneráveis do mundo.
www.survivalinternational.org








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Shell e a tragédia Nahua No passado, a exploração do petróleo levou a violentos e desastrosos contatos com índios isolados. No início da década de 1980, a exploração conduzida pela Shell levou ao contato com a tribo isolada Nahua. Em poucos anos, mais de 50% dos Nahua morreram. Várias companhias de petróleo estão agora trabalhando em áreas onde vivem índios isolados, incluindo os territórios das tribos Cacataibo e Nanti. Essas empresas são: Perenco, que adquiriu a Barrett Resources, Repsol-YPF e Petrolífera. Enquanto isso, o Peru descreve sua política para as empresas internacionais como ‘portas abertas’. O governo está incentivando ativamente novas empresas a explorarem áreas habitadas por tribos isoladas, incluindo a Mashco-Piro e Isconahua. Mogno: ‘Ouro Vermelho’ Uma outra ameaça significativa aos índios isolados é a atividade de madeireiros ilegais, muitos deles à procura de mogno. Conhecido como ‘ouro vermelho’, o mogno apresenta um preço elevado no mercado global. A floresta peruana contém parte das últimas reservas de mogno comercialmente viáveis no mundo, o que tem provocado uma ‘febre do ouro vermelho’. Tragicamente, estas são as mesmas regiões onde os índios isolados vivem, o que significa que os madeireiros invadem seus territórios e o contato é quase inevitável. Em 1996, madeireiros ilegais forçaram contato com os índios Murunahua. Nos anos seguintes, mais de 50% deles morreram, principalmente em decorrência de resfriados, gripes e outras infecções respiratórias. Madeireiros também têm forçado membros de uma tribo isolada a fugir pela fronteira do Peru para o Brasil.

Mick Jagger se vê envolvido em disputa sobre ‘tomada ilegal de gás’ na Amazônia



  • Mick Jagger tornou-se um Embaixador Ambiental pelo governo peruano, no ano passado

A lenda musical Sir Mick Jagger se vê envolvido em uma amarga disputa sobre uma ‘tomada ilegal de gás’ na Amazônia peruana.

O governo peruano provocou a fúria de grupos indígenas após ser descoberto que está tentando explorar gás em uma reserva na Amazônia a despeito de ter se comprometido em nunca fazê-lo.

A reserva é o território de diversas tribos isoladas vulneráveis, além de ser uma zona de proteção para o Parque Nacional Manu, listado pela UNESCO como um sítio de Patrimônio da Humanidade por conter uma diversidade biológica que ‘supera qualquer outro local na Terra’.

Após visitar a região Manu, Mick Jagger tornou-se um Embaixador Ambiental pelo governo peruano, que o descreveu como ‘um grande apoio na nossa luta para proteger nossa ecologia’. A Survival International escreveu ao cantor dos Rolling Stones, dizendo que ‘as últimas tribos isoladas no Peru estão em perigo iminente… por favor peça ao governo peruano que pare de colocar suas vidas em risco’.

O plano do Peru de expandir seu gigantesco projeto de gás, Camisea, tem sido tocado silenciosamente. Nove anos atrás o governo afirmou que nunca expandiria o projeto para o leste, adentrando a Reserva Nahua-Nanti, na qual vivem várias tribos isoladas; o país inclusive promulgou um Decreto Supremo garantindo o compromisso.

No entanto, relata-se que o governo agora criou um novo bloco de exploração na reserva para a empresa estatal de gás, PetroPeru; a Survival recebeu informações de que há tentativas de revogar o Decreto.

Ironicamente, o novo bloco chama-se Fitzcarrald, o nome do barão da borracha cujas atividades na região há um século contribuíram às mortes de milhares de indígenas em decorrência de epidemias e maus-tratos.

Em uma ironia do destino, em 1982 Mick Jagger iria participar do filme de Werner Herzog, ‘Fitzcarraldo’, sobre o barão da borracha. Ele foi substituído mas chegou a gravar várias cenas na Amazônia peruana.

Em carta à Survival, o vice-Ministro da Cultura do Peru, cujo ministério é responsável por assuntos indígenas, se comprometeu em proteger grupos de índios isolados. Contudo, as diversas questões levantadas pela Survival ao Ministério de Energia e à PetroPeru foram ignoradas.

O Diretor da Survival International, Stephen Corry, disse hoje: ‘É irônico que o mais novo projeto de exploração de gás do Peru receba um nome que represente o temerário roubo de terras indígenas. O Peru deveria parar e se recordar pelo motivo da proteção dessas áreas, e o Mick Jagger deveria utilizar o seu título honorário para exigir alguns esclarecimentos’.

Survival - O movimento pelos povos indígenas

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