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quinta-feira, 5 de julho de 2012

O índio que refloresta a Amazônia


Samuel Basílio, guia de turismo na Amazônia, mostra como fazer um abrigo para passar a noite no meio da floresta


O guia de turismo Samuel Pedro Basílio, índio da etnia Baré, recupera voluntariamente áreas degradadas da Floresta Amazônica

Sobrevoar o coração da Floresta Amazônica é estender o olhar por um mosaico de verdes, de uma incrível diversidade de tons e texturas. Da janela do avião – adiante ou atrás, à direita ou à esquerda – a floresta some no horizonte. Pende ora para o verde musgo, ora para o equilíbrio claro-escuro, interrompido aqui e ali por um salpicado de amarelo, um punhadinho de rosa e raros vermelhos.


Fruto de castanha-do-brasil com as sementes
Fruto de castanha-do-brasil com as sementes


Nada rouba a impressão de infinito. As áreas ocupadas pelas cidades e pela degradação ainda parecem pequenas face à extensão da floresta. Assim, falar em recomposição da Floresta Amazônica pode soar como algo desnecessário. Sobretudo quando essa é a conversa de um índio que mora em Manaus e trabalha como guia de turismo em regiões relativamente preservadas, no coração da floresta, como o rio Negro e o lago Tracajá.

“Algumas pessoas realmente acham que a floresta é imensa, é infinita. Mas não é verdade. Eu trabalho como tradutor e já acompanhei muitas equipes de reportagem, além dos turistas. Muitos clientes falam da extensão dos desmatamentos e da importância do reflorestamento”, conta o guia de turismo Samuel Pedro Basílio. “Isso me deu outra visão, passei a me preocupar em reflorestar as áreas degradadas.”


Embaúbas na Floresta Amazônica
Embaúbas que nascem espontaneamente em áreas abertas são sempre bem vindas,
 pois garantem sombra para as mudas plantadas


Com a orientação do amigo Max Maia, proprietário do Amazon Turtle Lodge, o guia de turismo passou a trabalhar como voluntário em plantios de mudas de árvores nativas. “Conseguimos mudas de castanha, mogno, andiroba e muitas outras árvores produtivas junto ao Horto Municipal de Manaus. Algumas organizações não governamentais também ajudaram e nós ainda começamos a produzir nossas mudas, a partir de sementes coletadas ali ao redor do hotel”, relata Samuel.


Sementes de andiroba
Sementes de andiroba são plantadas duas a duas e 
atingem o tamanho ideal para a transferência de campo em 8 a 12 meses 


A iniciativa já tem três anos e se transformou numa das atividades oferecidas aos hóspedes do lodge, afirma Max Maia. Localizado junto ao lago Tracajá e ao rio Mamuri, a sudoeste de Manaus, o hotel de selva recebe cerca de 1.700 hóspedes por ano, com um mínimo de cinco dias de estadia. “Noventa e nove por cento dos hóspedes são estrangeiros e os poucos brasileiros que vêm são de São Paulo. O plantio de mudas ajuda a recuperar a mata e a fertilidade do solo, especialmente nas áreas onde foram feitas muitas queimadas, em antigas roças nas proximidades do hotel”, avalia.


Seringueira na Amazônia
A seringueira é uma das árvores plantadas na recomposição de áreas degradadas da Amazônia


O hóspede pode escolher entre 30 e 40 espécies de árvores diferentes e fazer o plantio após a trilha de mata. Alguns grupos de estrangeiros, montados por organizações ambientalistas em seus países de origem, já viajam com o propósito de plantar. Estes grupos, então, trabalham mais pesado durante pelo menos dois dias e só depois saem para os passeios.


Turista hospedada no Amazon Turtle Lodge, na Amazônia
Turista hospedada no Amazon Turtle Lodge, na Amazônia, 
contribui para o plantio de árvores ao redor do Lago Tracajá 


Com base na experiência adquirida nas cercanias do hotel de selva, Samuel Basílio passou a incentivar outros ribeirinhos a recuperar antigas roças com o plantio de árvores nativas. Na conversa, ele explica as vantagens de replantar nas áreas degradadas, em vez de sair derrubando floresta para abrir novas roças. “Fazemos o plantio tanto em pastos enfraquecidos, onde o capim já não tem vigor e não sustenta o gado, como em áreas de roça degradadas”, conta. Se o ribeirinho dá a autorização para o plantio em sua área, o guia ensina a abrir as covas, adubar, plantar e ainda dá assessoria para a futura manutenção das mudas, que podem levar de 10 a 15 anos para começar a produzir, que é o caso da castanheira.


Iberostar Grand Amazon, hotel flutuante na Amazônia 
Iberostar Grand Amazon: o trabalho em hotéis flutuantes de 5 estrelas 
abriu os olhos do guia de turismo Samuel Basílio sobre 
a importância de trabalhar pela conservação da Amazônia


“Com o passar do tempo, esses ribeirinhos vão se tornar produtores de copaíba, andiroba, castanha. E ainda temos um projeto de plantio de açaí nas encostas”, enumera o índio convertido em plantador de florestas.


Guia de turismo na Amazônia Samuel Basílio
Em seus dias de folga, o guia de turismo Samuel Basílio planta sementes como as de andiroba,
 árvore de onde se extrai óleo repelente de insetos e subprodutos cosméticos e medicinais


Fonte: Nat Geo BR 
Redação/Fotos: Liana John

sábado, 23 de junho de 2012

A questão hidrelétrica no Brasil



                Réplica do gerador da usina de Marmelos, em Juiz de Fora, Minas Gerais


Um país que precisa de mais energia elétrica para crescer pode abrir mão da água como sua principal fonte de geração?

Itaipu é responsável por gerar 17% da energia consumida no Brasil. Durante sua construção, foram removidas mais de 40 mil pessoas e uma grande área foi alagada. Mas, hoje, a renda per capita da população de Foz do Iguaçu é 25% maior que a média nacional

Em 22 de agosto de 1889, a água do rio Paraibuna girou pela primeira vez uma das duas turbinas importadas dos Estados Unidos compradas para a usina de Marmelos, na cidade mineira de Juiz de Fora. Naquele dia, eram gerados os primeiros watts-hora (Wh) de energia hidrelétrica da América Latina. A usina foi construída pelo industrial mineiro Bernardo Mascarenhas, que, ao visitar a Exposição Universal de 1878, em Paris, decidiu construir uma tecelagem que seria abastecida com energia de origem hidráulica. Meses depois de inaugurada, a primeira hidrelétrica brasileira passou a fornecer eletricidade para manter acesas 180 lâmpadas da iluminação pública de Juiz de Fora, antes alimentada a gás.

Dos primeiros 250 quilowatts de potência na usina Marmelos aos atuais 84.736 megawatts (MW) de capacidade hidrelétrica instalada no Brasil passaram-se mais de 120 anos e, apesar dos avanços tecnológicos e do tamanho das novas usinas, gerar eletricidade da água continua sendo basicamente igual: a força contida na correnteza dos rios movimenta uma turbina acoplada a um gerador, que transforma energia mecânica em elétrica.


                Usina de Marmelos, a primeira hidrelétrica da América Latina, em Juiz de Fora, Minas Gerais

Mas nunca na história deste país as hidrelétricas causaram tanta polêmica como agora. O centro da atual discussão é a construção da usina de Belo Monte, no Pará, a ser erguida às margens do rio Xingu. A obra, cujo preço é estimado em 32 bilhões de reais, deverá ser a terceira maior hidrelétrica do mundo – atrás apenas das de Três Gargantas, na China, e Itaipu, no Brasil – e criou dois times que lutam em campos opostos. No grupo dos especialistas, dos analistas econômicos e do próprio governo, apenas grandes hidrelétricas serão capazes de fornecer energia limpa e barata em escala suficiente para satisfazer a demanda crescente por luz elétrica no país. No time dos ecologistas e dos ativistas sociais, os ganhos são bem menores em comparação ao rastro de destruição que elas deixam para o meio ambiente, para as populações indígenas e para as comunidades ribeirinhas. Entre os dois pontos de vista, há um fato e um dilema: o Brasil é o país com o maior potencial hidrelétrico do mundo, com mais de 260 mil megawatts já catalogados. Apenas um terço disso é explorado. A riqueza dos rios brasileiros para geração de eletricidade é uma bênção da natureza ou uma maldição, que nos acompanhará por todo o século 21?

Poucos países no mundo desfrutam de um sistema hídrico tão generoso quanto o nosso. Os livros escolares apontam que 55.455 quilômetros quadrados (do total de 8.514.876 quilômetros quadrados que compõem a área do território brasileiro) estão cobertos por água, distribuídos em rios, lagos e riachos. É a abundância de rios e quedas-d’água que produz o enorme potencial de energia hidráulica. Hoje, estão em operação mais de 180 grandes usinas, responsáveis por quase 70% da produção nacional de energia elétrica. Isso também faz do país o segundo maior produtor de energia hidrelétrica no mundo, com 12% da geração mundial, perdendo apenas da China. Segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), órgão ligado ao Ministério de Minas e Energia, outros 73 projetos hidrelétricos estão em construção, incluindo as pequenas centrais. E mais 24 estão programados até 2020. A lista de projetos deve atender à crescente demanda. Estima-se que até aquele ano o consumo no Brasil deva atingir 730 mil gigawatts-hora (GWh) – 52% a mais do que consumimos em 2011.


A imensa necessidade de energia é explicada pela expectativa de fortalecimento da economia brasileira. Nos últimos cinco anos, o país cresceu em média 4% ao ano, o que nos posicionou como a sexta maior economia do planeta. Um dos aspectos mais visíveis desse bom momento foi a ascensão de mais de 30 milhões de brasileiros à chamada nova classe média. Os consumidores emergentes não hesitam em comprar televisores, geladeiras, freezers, computadores, celulares e toda a sorte de eletrodomésticos – e, com isso, aumentam o consumo de luz.

Até 2020, o Brasil terá de ampliar a capacidade de geração dos atuais 115 mil megawatts para 171 mil megawatts. Para cumprir essa meta, o governo federal aposta na expansão de diferentes matrizes de produção. A geração de energia nuclear, que, no passado, era o alvo preferencial dos ecologistas, deverá crescer 70% com a entrada em operação da usina Angra 3, prevista para 2016. Os investimentos também serão generosos na promissora alternativa eólica. Mas, mesmo com essa diversificação e o aumento de capacidade de outras fontes, mais da metade da expansão energética se dará por meio das grandes hidrelétricas. Serão acrescidos ao sistema mais 30 mil megawatts – potência suficiente para abastecer as regiões Norte e Nordeste juntas. Para pânico dos ambientalistas, quase toda a nova capacidade instalada deverá ocorrer na região amazônica.



por Fabiane Stefano
Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

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