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terça-feira, 30 de julho de 2013

Carta dos Povos Indígenas do MS entregue à Presidenta Dilma Rousseff


Índios guaranis. Tonico Benites luta pelos direitos dos guaranis que vivem em sua terra ancestral. (Cortesia da Organização Survival Internacional)


12 de julho de 2013
INFORMATIVO DO CONSELHO DA ATY GUASU GUARANI KAIOWÁ


Aty Guasu
Dourados

Esta nota visa comunicar a todas as sociedades nacionais e internacionais que no dia 10 de julho de 2013, às 15h00min, os representantes e porta voz da Assembléia Geral dos Povos Indígenas da Aty Guasu Guarani-Kaiowá, Kadweu e Terena do Mato Grosso do Sul, pela primeira vez estiveram reunidos com a Presidente da República do Brasil DILMA ROUSSEFF, na ocasião da primeira (1ª) reunião com a presidente do Brasil, os representantes indígenas do Estado de Mato Grosso do Sul relataram e entregaram o documento da Assembleia Geral dos povos indígenas à Dilma Rousseff.

Segue o resumo do documento entregue diretamente à presidenta da República do Brasil.


Nós representantes dos povos indígenas Terena, Kadweu, Guarani, Kaiowá, mais uma vez relatamos as realidades indígenas do Estado de Mato Grosso do Sul, ao mesmo tempo solicitamos as soluções urgentes à presidente da República. Uma das demandas urgente é o reconhecimento, demarcação e devolução definitiva de nossas terras tradicionais. Outra reivindicação é a efetivação de nossos direitos constitucionais na área de segurança, nas assistências sociais, na área de produção sustentável, na área de saúde indígena e na educação escolar indígena, que esses direitos não são efetivados pelos governos municipais e estaduais nas aldeias indígenas, nos acampamentos e nas terras indígenas em conflito/litígio, localizadas no Estado de Mato Grosso do Sul. 

Em relação à demora na demarcação de nossas terras reivindicadas, relatamos à Presidenta da República que existem terras indígenas tradicionais reconhecidas, declaradas e homologadas pelo governo federal em meados de 1980, 1990 e 2000 já declaradas e homologadas como terras indígenas, mas até o momento nós indígenas não tomamos a posse das terras e nem usufruímos os recursos das partes das nossas terras homologadas pelo presidente da República, em decorrência disso, os nossos direitos indígenas e humanos básicos são violados e ignorados, as nossas comunidades indígenas passam miséria, morrem, se sentem injustiçados e humilhados, mas os fazendeiros continuam arrendando e explorando as terras indígenas declaradas e homologadas pelo presidente da República. Os fazendeiros continuam se enriquecendo ilegalmente sobre essas terras indígenas. Enquanto que nós povos indígenas estamos morrendo e passando miséria e fome, sem espaço de terras para produzir os nossos alimentos, por isso, as novas gerações indígenas entram em estado de desespero profundo. Relatamos que nesse contexto, há genocídio indígena em curso, desde 1988 até 2013, Um mil (1.000) indígenas Guarani-Kaiowá praticaram o suicídio, por perder a esperança de viver dignamente nas suas terras tradicionais.

Explicitamos à Presidente da República do Brasil que não demarcação de nossas terras indígenas, os atrasos e omissões inexplicáveis por parte do governo e da justiça federal violam legislação e direitos fundamentais de nossos indígenas inscritos na Constituição Federal CF/88, na legislação infraconstitucional inscritos em Acordos e Pactos Internacionais dos quais o Brasil signatário, como a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, a Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos – ONU, o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais – ONU, e a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (OEA).

Relatamos à Dilma Roussef que no Mato Grosso do Sul, existem propagação permanente de racismo, discriminação e ódio contra os indígenas tanto pela mídia local quanto pela manifestação pública dos fazendeiros anti-indígenas e autoridades locais. Os autores e mentores de racismo deveriam a ser apurados e responsabilizados, conforme as leis existentes.

O genocídio dos povos indígenas do MS em curso foi e é alimentado pelos fazendeiros anti-indígenas. Centena de lideranças foi assassinada pelos pistoleiros das fazendas. Os assassinos das lideranças indígenas não são julgados e nem punidos no Mato Grosso do Sul, a impunidade alimenta mais as violências contras os povos indígenas.


Há os crimes de ameaças e assassinatos de lideranças pelos pistoleiros das fazendas (sem investigação e punições conclusivas os responsáveis.)

Nas terras indígenas em conflito, há as omissões, negligências e ausências de políticas públicas elementares e básicas, nas áreas da produção de alimentos, de saúde, de educação, ambientais e sociais.

Destacamos na reunião com a Dilma que nós indígenas do Mato Grosso do Sul sofremos violências tanto pelos pistoleiros dos fazendeiros quanto pela decisão da justiça federal, que nenhuma decisão da justiça federal instalada no Estado de Mato Grosso do Sul não considera os nossos direitos, todas as decisões foram favoráveis aos fazendeiros, ignorando os nossos direitos.

Narramos à Dilma que nós indígenas reocupamos/retomamos uma parte de nossas terras demarcadas após aguardar a anos e décadas a decisão do governo e da justiça, e hoje acabou a nossa paciência, não vamos mais aguardar não, que a nossa decisão e fazer retomada de nossas terras demarcadas e já regularizadas pelo governo, porque as nossas crianças e idosos estão sofrendo e morrendo, estamos sendo massacrados, enganados e humilhados, por isso decidimos a realizar o movimento de retomada das terras tradicionais.

Visto que há o impedimento dos indígenas para caçar, pescar e usufruir da mata nativa que resta na terra já declarada como indígena, mas ainda ocupada por fazendeiros. Há o arrendamento, extração e comércio ilegal de madeira na mata nativa que resta na terra já declarada indígena.

Há várias comunidades indígenas, precariamente instaladas em barracos de lona em barranco à beira da rodovia e acampamento e sofre cerco de pistoleiros das fazendas.

Na rodovia, há atropelamento das crianças e idosos, as ameaças, as mortes, o despejo sofrido (queima de barracos), quando os fazendeiros assassinam os indígenas não há investigações sérias e/ou conclusões a respeito.

Por fim, relatamos à Presidenta da República do Brasil Dra. Dilma, a decisão da assembleia geral dos povos indígenas do Mato Grosso do Sul, que aguardaremos a conclusão dos relatórios da comissão criada pelo ministério da justiça e do Conselho Nacional da Justiça que o término dos relatórios das comissões está previsto para o dia 05 de agosto de 2013.

Dessa forma, relatamos e comunicamos à presidenta Dilma que antes de continuarmos da reocupação de nossas terras tradicionais reivindicadas decidimos em aguardar o relatório final da comissão do Conselho Nacional da Justiça (CNJ) e do relatório da comissão do Ministério da Justiça em curso. Aguardaremos até 08 de agosto de 2013. Nos dias e 07 e 09 de agosto de 2013, ocorrerá 3ª assembleia geral dos povos indígenas do Mato Grosso do Sul, nos dias em que iremos discutir e avaliar os resultados de estudos das comissões mencionadas. Depois do dia 09 de agosto de 2013, discutiremos sobre a reocupação de nossas terras tradicionais. Essa é o resumo dos relatos e do documento da assembleia geral dos povos indígenas do Mato Grosso do Sul que foi entregue diretamente à Presidenta da República do Brasil.


Atenciosamente,

Brasília-DF, 10 de julho de 2013.

Comissão das lideranças da assembleia geral do Mato Grosso do Sul: Aty Guasu Guarani-Kaiowá, Kadweu e Terena.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

O índio que refloresta a Amazônia


Samuel Basílio, guia de turismo na Amazônia, mostra como fazer um abrigo para passar a noite no meio da floresta


O guia de turismo Samuel Pedro Basílio, índio da etnia Baré, recupera voluntariamente áreas degradadas da Floresta Amazônica

Sobrevoar o coração da Floresta Amazônica é estender o olhar por um mosaico de verdes, de uma incrível diversidade de tons e texturas. Da janela do avião – adiante ou atrás, à direita ou à esquerda – a floresta some no horizonte. Pende ora para o verde musgo, ora para o equilíbrio claro-escuro, interrompido aqui e ali por um salpicado de amarelo, um punhadinho de rosa e raros vermelhos.


Fruto de castanha-do-brasil com as sementes
Fruto de castanha-do-brasil com as sementes


Nada rouba a impressão de infinito. As áreas ocupadas pelas cidades e pela degradação ainda parecem pequenas face à extensão da floresta. Assim, falar em recomposição da Floresta Amazônica pode soar como algo desnecessário. Sobretudo quando essa é a conversa de um índio que mora em Manaus e trabalha como guia de turismo em regiões relativamente preservadas, no coração da floresta, como o rio Negro e o lago Tracajá.

“Algumas pessoas realmente acham que a floresta é imensa, é infinita. Mas não é verdade. Eu trabalho como tradutor e já acompanhei muitas equipes de reportagem, além dos turistas. Muitos clientes falam da extensão dos desmatamentos e da importância do reflorestamento”, conta o guia de turismo Samuel Pedro Basílio. “Isso me deu outra visão, passei a me preocupar em reflorestar as áreas degradadas.”


Embaúbas na Floresta Amazônica
Embaúbas que nascem espontaneamente em áreas abertas são sempre bem vindas,
 pois garantem sombra para as mudas plantadas


Com a orientação do amigo Max Maia, proprietário do Amazon Turtle Lodge, o guia de turismo passou a trabalhar como voluntário em plantios de mudas de árvores nativas. “Conseguimos mudas de castanha, mogno, andiroba e muitas outras árvores produtivas junto ao Horto Municipal de Manaus. Algumas organizações não governamentais também ajudaram e nós ainda começamos a produzir nossas mudas, a partir de sementes coletadas ali ao redor do hotel”, relata Samuel.


Sementes de andiroba
Sementes de andiroba são plantadas duas a duas e 
atingem o tamanho ideal para a transferência de campo em 8 a 12 meses 


A iniciativa já tem três anos e se transformou numa das atividades oferecidas aos hóspedes do lodge, afirma Max Maia. Localizado junto ao lago Tracajá e ao rio Mamuri, a sudoeste de Manaus, o hotel de selva recebe cerca de 1.700 hóspedes por ano, com um mínimo de cinco dias de estadia. “Noventa e nove por cento dos hóspedes são estrangeiros e os poucos brasileiros que vêm são de São Paulo. O plantio de mudas ajuda a recuperar a mata e a fertilidade do solo, especialmente nas áreas onde foram feitas muitas queimadas, em antigas roças nas proximidades do hotel”, avalia.


Seringueira na Amazônia
A seringueira é uma das árvores plantadas na recomposição de áreas degradadas da Amazônia


O hóspede pode escolher entre 30 e 40 espécies de árvores diferentes e fazer o plantio após a trilha de mata. Alguns grupos de estrangeiros, montados por organizações ambientalistas em seus países de origem, já viajam com o propósito de plantar. Estes grupos, então, trabalham mais pesado durante pelo menos dois dias e só depois saem para os passeios.


Turista hospedada no Amazon Turtle Lodge, na Amazônia
Turista hospedada no Amazon Turtle Lodge, na Amazônia, 
contribui para o plantio de árvores ao redor do Lago Tracajá 


Com base na experiência adquirida nas cercanias do hotel de selva, Samuel Basílio passou a incentivar outros ribeirinhos a recuperar antigas roças com o plantio de árvores nativas. Na conversa, ele explica as vantagens de replantar nas áreas degradadas, em vez de sair derrubando floresta para abrir novas roças. “Fazemos o plantio tanto em pastos enfraquecidos, onde o capim já não tem vigor e não sustenta o gado, como em áreas de roça degradadas”, conta. Se o ribeirinho dá a autorização para o plantio em sua área, o guia ensina a abrir as covas, adubar, plantar e ainda dá assessoria para a futura manutenção das mudas, que podem levar de 10 a 15 anos para começar a produzir, que é o caso da castanheira.


Iberostar Grand Amazon, hotel flutuante na Amazônia 
Iberostar Grand Amazon: o trabalho em hotéis flutuantes de 5 estrelas 
abriu os olhos do guia de turismo Samuel Basílio sobre 
a importância de trabalhar pela conservação da Amazônia


“Com o passar do tempo, esses ribeirinhos vão se tornar produtores de copaíba, andiroba, castanha. E ainda temos um projeto de plantio de açaí nas encostas”, enumera o índio convertido em plantador de florestas.


Guia de turismo na Amazônia Samuel Basílio
Em seus dias de folga, o guia de turismo Samuel Basílio planta sementes como as de andiroba,
 árvore de onde se extrai óleo repelente de insetos e subprodutos cosméticos e medicinais


Fonte: Nat Geo BR 
Redação/Fotos: Liana John

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Survival International lança nova campanha pela sobrevivência dos Awá-Guajá


Cena que abre o vídeo da Campanha pela sobrevivência dos Awá-Guajá


  • Lançada nesta quarta-feira, 25, a campanha denuncia a violência a qual os Awá-Guajá estão expostos na Amazônia maranhense.

Com o objetivo de salvar “a tribo mais ameaçada do mundo”, a campanha internacional tem como carro-chefe um curta-metragem, acompanhado de um website com detalhes sobre o desmatamento da TI Awá por invasores não indígenas, além de fotografias e depoimentos exclusivos dos próprios Awá-Guajá. Com apoio do ator inglês Colin Firth, a mobilização pede a intervenção do Ministério da Justiça para a expulsão derradeira dos invasores do território tradicional desse povo indígena.

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, principal interlocutor da campanha, já se pronunciou sobre o assunto, sem, contudo, indicar quais providências tomará sobre o caso. Conforme informações divulgadas pelo portal UOL, Cardozo afirmou no dia 24/4 que é impossível evitar situações de violência contra os povos indígenas por conta da “imensidão do território brasileiro”.

A ocupação ilegal e permanente nas Terras Indígenas que compõem o território awá-guajá – as TIs Awá, Alto Turiaçu, Caru – não é novidade. A nova campanha da Survival International chama a atenção sobre uma situação grave, há muito conhecida e denunciada.

Em agosto de 2011, um grupo de pesquisadores, vinculados a ONGs e instituições de pesquisa nacionais e internacionais, encaminhou uma carta à presidente Dilma Rousseff cobrando providências que evitassem a extinção do povo Awá-Guajá no Maranhão. Entre elas, estava o pedido de criação, em caráter de urgência, de uma força-tarefa interministerial, que desse consequência a ações imediatas para proteger os Awá e suas florestas. Leia a cronologia sobre os Awá apresentada à presidência da República.

A TI Awá sofre também o impacto de obras de infraestrutura e está na área de influência da estrada de ferro Carajás (Companhia Vale do Rio Doce), de 892 km, cuja duplicação foi iniciada em meados de 2011.

Há também evidências de três grupos awá-guajá isolados na Ti Araribóia - de usufruto dos índios Guajajara -que somam 60 indígenas gravemente ameaçados pelos invasores.

Histórico das pressões

Desde 1985, quando foi identificada pela Funai, a TI Awá passou por diferentes delimitações. O reconhecimento teve início na década de 1980, mas ficou parado por conta da forte oposição de fazendeiros, madeireiros e posseiros que ocupam a área desde a década de 1950.

Já em 1994 um equipe de trabalho da Funai havia tentado iniciar a demarcação física da TI Awá, mas foi impedida de continuar por moradores da região. Só em 2002 o processo de demarcação pode ser retomado tendo sido finalizado em 2003.

Em 2002 o Ministério Público Federal ajuizou uma ação civil pública pela demarcação da terra. A sentença da ação, proferida em 2009 – após o decreto de homologação da TI, de 2005 –, determinou a nulidade e a extinção dos atos que tenham possibilitado a ocupação de terras no interior da TI Awá, incluindo aqueles praticados pela empresa Agropecuária Alto Turiaçu – que reivindicava judicialmente a posse de 37 980 hectares situados na terra Awá. A sentença, que determinava também a retirada dos posseiros e das instalações da Agropecuária Alto Turiaçu, contudo foi suspensa no mesmo ano pelo presidente do Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª região, Jirair Aram Meguerian, a pedido da prefeitura do município de Zé Doca (MA).

Os recursos dessa decisão foram julgados pela Sexta Turma do TRF da 1ª região em 9 de dezembro de 2011, que determinou, por unanimidade, que a União e a Funai, no prazo de um ano, deveriam promover o registro em cartório da TI, além da remoção de todos os ocupantes não indígenas e suas edificações, negando provimento à apelação da Agropecuária Alto Turiaçu. O acórdão da decisão foi publicado em 7 de março no Diário da Justiça.

Cenário desolador

Segundo informações do antropólogo Uirá Felippe Garcia, publicadas no livro Povos Indígenas no Brasil 2006-2010, além da TI Awá, as áreas Alto Turiaçu e Caru (homologadas em 1982) e a Reserva Biológica (Rebio) do Gurupi, estão ocupadas por fazendas de gado, carvoarias, lavouras ilegais e madeireiros.

O assédio dos madeireiros às TIs no Maranhão aumentou justamente a partir 2008, quando o Ibama intensificou a repressão ao desmatamento no Pará. Na Terra Indígena Awá, a porcentagem de desmatamento da cobertura vegetal é de 31,19%. O desmatamento cresceu principalmente entre 2008 e 2009: em apenas um ano, a área desmatada foi de 17 para 6216 hectares. Também na TI Araribóia o desmatamento cresce em ritmo vertiginoso. Como é possível verificar no gráfico abaixo, o período de 2007 a 2009 representa 56% do total desmatado em dez anos na terra.

Operações pontuais foram realizadas na área, como a Operação Arco de Fogo, de 2009, deflagrada em vários estados da Amazônia. Para Uirá Garcia, apesar de terem resultados momentâneos (como a apreensão de grandes quantidades de madeira extraídas das áreas e o fechamento de algumas serrarias), esses esforços acabam sendo ineficazes nas áreas awá-guajá, porque os madeireiros costumam retornar a elas logo que as operações terminam.

“Tanto os madeireiros que invadem a área para marcar e extrair madeira, quanto os posseiros, quase sempre são pessoas miseráveis e esquecidas; muitas vezes são eles os incriminados pelas autoridades quando encontrados nas TIs. A maior ameaça está em quem de fato está 'apertando o gatilho': o conjunto de empresários, fazendeiros, políticos locais e (agora) traficantes que aliciam tais trabalhadores, estimulando a invasão das áreas indígenas, e que jamais são autuados e punidos”, avalia o antropólogo.


Um pouco da cultura e filosofia de um povo do bem:

Programa Fantástico (Globo/2011)


‘Nós vivemos na profundeza da floresta e estamos encurralados conforme madeireiros avançam. Estamos sempre fugindo. Sem a floresta, não somos ninguém e não temos como sobreviver.’ (To’o Awá)

Bruno Fragoso, coordenador da Frente Etnoambiental da Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato - CGIIRC - da FUNAI, em entrevista para Globo Fantástico, afirmou, “Os awá-guajá, no processo de aceleração de invasão em que se encontram, se não houver ação rápida e emergencial, o futuro desse povo é a extinção”. (Globo.com 2011)

domingo, 22 de abril de 2012

O “Vale dos Esquecidos”, por Maria Raduan





Diretora registra luta pela terra na Amazônia


O Brasil está com a economia em plena ascensão enquanto os países europeus e os Estados Unidos se viram com a crise financeira. Vai sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas, dois dos principais eventos esportivos mundiais. E vai se tornar um dos maiores exportadores de petróleo do planeta após a descoberta do pré-sal. Aparentemente, já estamos no “Primeiro Mundo”. Mas a verdade é que, longe do litoral, o país ainda enfrenta problemas típicos do Terceiro Mundo, como a questão da posse da terra.

Índios, fazendeiros, posseiros, grileiros e movimentos sociais travam uma verdadeira batalha nas regiões do Centro-Oeste e Norte do país. Essa guerra, que já dura décadas e vem tirando cada vez mais vidas e desmatando a região amazônica, é o tema do documentário “Vale dos Esquecidos”. Dirigido por Maria Raduan, o filme estreou nesta sexta-feira (20/4) em São Paulo e no Rio de Janeiro, após passar por alguns festivais nacionais e internacionais.



“A história de ‘Vale dos Esquecidos’ é igual a tantas outras na Amazônia, os personagens são sempre os mesmos”, lamenta a diretora, em entrevista exclusiva à Pipoca Moderna. “A ideia foi mostrar um microcosmo que representa a Amazônia e todo o ‘interiorzão’ do Brasil”, definiu.

A cineasta Maria Raduan conta que o filme surgiu inicialmente com a proposta de expor a história dos índios Xavante, que vivem na região, e sua situação diante da luta por seu espaço, mas logo de cara ela viu que o buraco era ainda maior e mais embaixo.



A Fazenda Suiá-Missú, no Mato Grosso, já foi considerada o maior latifúndio do mundo, ocupando uma área equivalente a 252 vezes a ilha de Manhattan (Nova York), mas tem sido constantemente tomada por diferentes grupos: índios já foram expulsos, grileiros se apropriam com interesse comercial, fazendeiros apresentam documentos de compra que não são reconhecidos pelo Ministério Público Federal e organizações poderosas também se interessam pelo local para o desenvolvimento da agropecuária.

A situação é caótica e mesmo o Estado Brasileiro não consegue (ou não quer) resolvê-la: desde 2010, a Justiça Federal determinou que a região é uma área indígena, porém os outros ocupantes se recusam a abandonar o local.



Para discutir sobre o assunto, Maria resolveu fazer uma “radiografia” cinematográfica, realizando uma complexa pesquisa com fotos, áudios e imagens, além de recolher depoimentos de todas as partes envolvidas.

“Desde a concepção do projeto, quis adotar uma postura de isenção, quis apresentar a história e seus diversos lados. E todo o esforço de montagem do filme é para que o espectador tenha elementos para entender o contexto historicamente e fazer algum julgamento, se lhe convier”, explicou a diretora.



Desta forma, ela deu voz a representantes dos grupos que reivindicam o local, uma cacofonia babélica que destaca Dom Pedro Casaldáliga, bispo duas vezes indicado ao Prêmio Nobel, o cacique Damião Paridzané, o líder Xavante Marawãtsède, o fazendeiro John Carter, o político Filemon Limoeiro, o posseiro Neto Figueiredo e a líder dos sem-terra Rosa Silva.

É um cabo de guerra com vários lados, geralmente tratado de forma superficial pela grande mídia. E para juntar suas pontas, a diretora precisou enfrentar inúmeras dificuldades, desde o acesso e locomoção na região, além das forças da natureza e a comunicação com todos os envolvidos. “É um assunto que incomoda”, ela lembra, “e os próprios entrevistados são relutantes para falar”.



Ainda assim, Maria encarou a situação e o resultado, “Vale dos Esquecidos”, é sua estreia na direção de um longa-metragem – ela já trabalha há anos com audiovisual, mas só havia realizado curtas. E para fazer justiça ao projeto, ela se cercou de profissionais experientes. Felipe Braga (roteirista da série televisiva “Mandrake” e do filme “Cabeça a Prêmio”) assinou o roteiro ao lado de diretora. A direção de fotografia contou com o alemão, radicado no Brasil há quase duas décadas, Sylvestre Campe (“O Homem Pode Voar”). E a montagem foi feita por Jordana Berg, frequente colaboradora do documentarista Eduardo Coutinho (“Jogo de Cena”).

A opção pelo tema árido tampouco se baseou em inexperiência. Ao contrário, deve-se a ela ter passado grande parte da infância no interior e ver de perto as disputas de terra. Maria é testemunha ocular de como o desmatamento cresce a níveis assustadores no país.




“Acho que a questão ambiental está cada vez mais em voga. A disputa de terras em alguma instância tem muito a ver com este tema. O futuro da Amazônia tem muito a ver com estas questões”, declarou. E o cinema nacional parece estar de olho nessa situação e vem abordando com frequência o drama dos indígenas, a violência causada pelas disputas territoriais, a exploração mineral e a derrubada ilegal de árvores na Floresta Amazônica.

“Vale dos Esquecidos” é o mais direto, mas não é o único documentário a abordar o tema. Um dos pioneiros a levantar a questão foi “Nas Terras do Bem-Virá” (2007, de Alexandre Rampazzo), que também apontou os constantes crimes da região, como o Massacre de Eldorado dos Carajás, no qual 19 sem-terras foram mortos, e o assassinato da Irmã Dorothy Stang.




O assunto também vem aparecendo com frequência na ficção e em produções de grande porte, como “Xingu”, de Cao Hamburguer, sobre a luta dos irmãos Villas-Bôas pela instituição do famoso parque nacional indígena. “Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios”, de Beto Brant e Renato Ciasca, que também estreia nesta sexta (20/4), traz novamente a região como cenário.

Em 2013, duas produções sobre o tema devem chegar ao grande público. Heitor Dhalia (“O Cheiro do Ralo”) pretende abordar o mais conhecido garimpo do Brasil em “Serra Pelada”, com Wagner Moura (“Tropa de Elite”) no elenco, e a riqueza da floresta tropical será tema da megaprodução “Amazônia – Planeta Verde”, filmada inteiramente em 3D ao custo de R$ 30 milhões. O filme é uma coprodução com a França e o roteiro é de Luiz Bolognesi (“Bicho de Sete Cabeças”). Também estão previstas as adaptações dos livros “Órfãos do Eldorado” e “Relato de um Certo Oriente”, ambos do escritor Milton Hatoum. O diretor Guilherme Coelho (“Fala Tu”) está envolvido com o primeiro título, enquanto Marcelo Gomes (“Cinema, Aspirinas e Urubus”) deve dirigir o segundo.





A própria Maria Raduan pretende refletir um pouco mais o tema em seu próximo projeto, que irá pretende analisar o impacto do gado zebu na pecuária e na economia do Brasil, a partir de sua vinda da Índia, no século passado – sabe-se que um dos grandes causadores do desmatamento na Amazônia é o avanço da agropecuária na região.

Enquanto o governo brasileiro se empenha em conquistar para o Brasil um lugar de mais destaque no mundo, o cinema nacional ajuda a lembrar que o dever de casa nem sequer foi iniciado. Longe das capitais, o clima é mais Velho Oeste que País do Futuro, com ou sem aprovação do novo Código Florestal.










Por: Leonardo Vinicius Jorge (Pipoca moderna)

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

No Amazonas, 40 tribos indígenas preferem o isolamento


De acordo com Loebens, o Vale do Javari é o a Região do Estado onde há mais das tribos que optam pelo isolamento e evitam contato com a civilização.


Manaus - No Amazonas, cerca de 40 tribos indígenas preferiram o isolamento após terem passado por massacres e maus-tratos por madeireiros e caçadores, segundo estudo do coordenador do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) na Região Norte 1, que inclui Amazonas e Roraima, o historiador Guenter Francisco Loebens.

O estudo originou um livro em que o indigenista defende que o avanço das frentes econômicas na Amazônia foram responsáveis pela destruição da cultura de tribos indígenas. A obra, intitulada ‘Povos Indígenas Isolados na Amazônia’, foi lançada na quarta-feira, 22 e produzida em parceria entre o Cimi e a Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

De acordo com Loebens, o Vale do Javari é o a Região do Estado onde há mais das tribos que optam pelo isolamento e evitam contato com a civilização. “O sul do Estado tem um histórico de massacres e também é uma região em que os nativos preferem viver distante do contato do homem civilizado, principalmente pela ação de madeireiros naquela região”, explicou.

Segundo o indigenista, a escolha pelo isolamento é uma proteção da cultura da própria vida dos nativos. “Nestes casos se torna até difícil para os órgãos de proteção ao índio terem informações mais precisas sobre estas tribos. Houve uma vez em que ao tentarmos fazer o primeiro contato, a reação foi logo violenta com o uso de flechas que atingiram um dos membros da equipe de pesquisadores”.

A ação, embora passe a imagem de viôlência é, na verdade, um meio de proteção e de medo, afirma o pesquisador. “Na avaliação destas tribos, o contato com a civilização só trouxe prejuízo para estes povos”.

Para Loebens, está cada vez mais difícil para estas tribos manterem esta opção, especialmente, na região sul do Amazonas. “Temos ali o avanço de desmatadores que estão avançando cada vez mais sobre a floresta e empurrando estas tribos em direção ao norte do Estado, onde eles irão, mais cedo ou mais tarde, encontrar a rodovia Transmazônica e as cidades que a margeiam”.

O Amazonas é o estado brasileiro com a maior população indígena do País, com 168 mil membros, segundo o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Funai confirma novo grupo de isolados no Estado

A Fundação Nacional do Índio (Funai) confirmou no início da última semana a existência de um novo grupo de índios isolados no Vale do Javari, no Amazonas. A Funai estima em cerca de 200 o número de índios no local e diz que eles, são, provavelmente de um grupo cuja língua é da família Pano. A comunidade foi localizada pela Frente de Proteção Etnoambiental, durante sobrevoo realizado em abril deste ano. Três clareiras com quatro grandes malocas foram avistadas pelos técnicos.

Antes mesmo do sobrevoo, o coordenador da Frente do Vale do Javari, Fabrício Amorim, havia identificado as clareiras por satélite. A confirmação desse tipo de descoberta requer, segundo ele, anos de trabalho sistemático e metódico, com realização de pesquisas documentais, expedições e análises de imagens de satélite.

Até a confirmação, a presença desses índios isolados era apenas uma referência “em estudo”, com base em relatos sem informações conclusivas sobre a exata localização e características da comunidade.
Em nota, a Funai informa que tanto a roça quanto as malocas são novas e foram concluídas no máximo há um ano. Essa avaliação tem por base o estado da palha usada na construção e a plantação de milho. No local há, ainda, plantações de bananas e uma vegetação rasteira similar à de amendoins.

Na Terra Indígena Vale do Javari há um complexo de povos isolados que é considerado a maior concentração de grupos isolados na Amazônia e no mundo.

Amorim aponta, entre as principais ameaças à integridade de povos indígenas isolados a pesca ilegal, a caça, a exploração madeireira, o garimpo, atividades agropastoris com grandes desflorestamentos, ações missionárias e situações de fronteira, como o narcotráfico. "Outra situação que requer cuidados é a exploração de petróleo no Peru, que pode refletir na Terra Indígena do Vale do Javari”, afirma Amorim.

A Funai reconhece a existência de 14 referências de índios isolados no Vale do Javari, mas o número pode ser ainda maior. Mais de 90 indícios de ocupações indígenas foram localizados entre 2006 e 2010, e há atualmente oito grupos de índios isolados com malocas, roças e tapiris (choupanas) já localizados por sobrevoo ou por expedições terrestres. De acordo com a Funai, em toda a região do Vale do Javari., vivem cerca de 2 mil indígenas.

Às Estrelas


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A gigante de couro pode atingir dois metros de comprimento e pesar até 750 kg.