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sábado, 18 de fevereiro de 2012

Por que o turismo ecológico deu certo na região de Bonito?

 

Clayton Castilho Gomes, diretor de Turismo da Prefeitura de Bonito, tenta esclarecer o que foi feito, com tantas possibilidades para dar errado – e os exemplos de massificação turística abundam na costa brasileira,  quais foram os elementos chaves que fizeram de Bonito a capital nacional do turismo ecológico.

“Alguns anos atrás depois de uma reportagem que o Globo Repórter realizou sobre Bonito, nós sabíamos que o lugar iria encher de gente. Foi preciso muita conversa entre os fazendeiros, as agências de turismo, os hotéis e a prefeitura para coordenar as atividades”, afirma Clayton. “Todos chegaram à conclusão que o mais importante era trabalhar em conjunto, sem deixar espaço para a ilegalidade. E assim foi criado um sistema de voucher único”, diz.


A Gruta do Lago Azul é o cartão postal de Bonito. Só entra no imenso buraco para descobrir o lago quem tiver o voucher único. Apenas 305 visitantes diários podem ter esse privilégio.

Uma das primeiras preocupações foi a sustentabilidade. Como fazer para que os visitantes pudessem conhecer lugares maravilhosos e, ao mesmo tempo, impedir que um número acima da capacidade detonasse esse paraíso? Para resolver o dilema, cada passeio – são, ao todo, 38 – passou por um estudo de impacto ambiental e um número máximo de visitantes diários foi estipulado.


Todas as atividades na região de Bonito (que compreende o município vizinho de Jardim, MS) encontram-se dentro de fazendas de gado, propriedades privadas. Se cada dono de fazenda resolvesse receber visitantes por sua própria conta, o processo iria virar uma grande bagunça. Foi preciso também criar um esquema de reservas para evitar que o visitante, depois de percorrer 20 ou 30 km de chão, chegasse ao destino e tivesse a má notícia de que não haveria mais espaço naquele dia.

Clayton explica que as reservas são centralizadas pelas agências de turismo. Graças a uma comunicação constante com as fazendas, todas as operadoras sabem quais são os horários disponíveis para os passeios. Uma vez escolhida a atividade, o voucher é emitido em cinco vias, três ficam na agência e duas são para o guia e para o passeio. “O voucher é tão respeitado no município que virou moeda corrente. Vale dinheiro vivo”, diz Clayton.


É a água pura e cristalina que deu fama a Bonito. Em uma das nascentes do rio Sucuri, na Fazenda Sucuri, água e natureza encantam os olhos dos visitantes. 

Mikael, antropólogo especialista em ecoturismo, pergunta sobre a estratégia conservacionista do município. “Conseguimos nossa boa reputação graças às águas cristalinas. Precisamos mantê-las sem impacto. Nosso maior foco é zelar pelas matas ciliares, aquelas que protegem os barrancos dos rios”, afirma o Diretor de Turismo. “Nosso ganha-pão é a pureza da água.”

O número de visitantes pode até crescer, mas a prioridade é manter a região em seu estado prístino. Um belo desafio!

Cataratas do Iguaçu, a maior fábrica de arco-íris do mundo



O arco-íris não precisa de chuva para nascer. As fábricas geradoras mais eficientes são as cachoeiras. Quem vai às Cataratas do Iguaçu em um belo dia ensolarado, recebe um presente adicional da natureza: uma coleção de arco-íris. Os ingredientes para o fenômeno são simples: luz solar e gotas de água. 

A luz do sol que bate na água pulverizada ajuda a manter um constante arco-íris nas diversas cachoeiras do rio Iguaçu.

Quase todas as quedas das majestosas Cataratas do Iguaçu criam elegantes arcos multicoloridos a qualquer hora do dia. O importante é a posição do sol – que deve estar sempre nas costas – e do chuvisco de água, à frente do observador.

Quando a combinação de luz e água é perfeita, o fenômeno cria uma segunda curva, um pouco mais acima. É o resultado da reflexão dupla da luz nas gotas de água. Extasiado pelo prodígio natural, descubro que a sequência das cores no arco adicional, mais tênue, está invertida. No arco-íris principal, o vermelho (que possui uma onda de luz mais longa) situa-se no exterior e o azul no interior. Já no arco secundário, as posições estão trocadas.


Um duplo arco-íris nos saltos Mbigua e Bernabé Mendez, do lado argentino das Cataratas do Iguaçu. O segundo arco (mais alto) leva as cores na ordem inversa.

A Mata Atlântica que rodeia os saltos está, a cada década, mais saudável e protegida. Até a qualidade da água parece ter melhorado. O que varia é o fluxo e a cor do rio Iguaçu. Durante a cheia, a água fica mais barrenta; quando a corrente é menor, é esverdeada. Nessa época do ano, a água está clara e aproveito os dias de sol para dar um objetivo adicional à minha jornada: identificar os melhores lugares para fotografar arco-íris nas cataratas.

O Parque Nacional do Iguaçu é o mais visitado do Brasil. Em 2011, mais de um milhão de pessoas avistaram as cataratas do nosso lado. Mas os pontos de observação são limitados pela nossa geografia e os turistas acabam se amontoando nos lugares clássicos: a plataforma perto do Hotel das Cataratas, o salto Santa Maria e o caminho que leva até essa cachoeira.

O Santa Maria é um dos poucos saltos nacionais. A melhor vista é da passarela construída sobre um trecho do rio. Estou de frente para a cachoeira e o sol está nas minhas costas. Sinto na face o vento criado pela força da queda d’água. Essa brisa molhada é o componente essencial para a criação de mais um arco-íris. A curva colorida vai de uma ponta à outra, cruzando o salto.

Ando na passarela e o fenômeno ótico segue meus passos. Se a intensidade da névoa diminui, o vigor das cores também desvanece. Escolho o momento e local ideal para registrar aquilo que apenas meus olhos enxergam. O arco-íris é uma ilusão ótica e não algo palpável. O ângulo de visão sempre é pessoal e único, diferente daquele da pessoa que está a seu lado.


Um arco-íris cruza todo o Salto Santa Maria, a cachoeira brasileira mais visitada. O sol precisa estar sempre atrás do observador

Para ser completa, a visita a esse Patrimônio Mundial precisa incluir o Parque Nacional Iguazú, na Argentina. Como o fluxo principal do rio – aquele que define legalmente a linha da fronteira – corre mais próximo ao Brasil, em nosso território ficamos apenas com uma sequência curta de cachoeiras de 500 metros de extensão, que vai do Salto Santa Maria à Garganta do Diabo. Os argentinos não só possuem uma fileira semelhante de cataratas na outra margem do cânion do Iguaçu, como também um grande complexo de cachoeiras ao redor da ilha San Martin, um quilômetro adiante. Calculei, com ajuda do Google Maps, que quase 70% das águas despencam do lado do vizinho.

Quanto mais água e luz, melhor para minha caça aos arco-íris. Visito o Salto Bossetti ao meio-dia e a posição do sol cria um arco colorido embaixo das águas, como se estivesse recebendo a enxurrada.Encerro a tarde com chave de ouro, na plataforma da Garganta do Diabo. O sol ilumina o coração das cataratas e estou no eixo correto fonte de luz–observador–água. O vigor das quedas não cria apenas a brisa necessária para um constante arco colorido, mas molha todos os visitantes.


Um longo arco-iris, fotografado no país vizinho, envolve as cascatas da Garganta do Diabo, divisa entre Brasil e Argentina.

É fácil perceber porque as Cataratas do Iguaçu atraem tanta gente. Qualquer uma das cachoeiras, se isolada, seria considerada uma visita obrigatória. Imagine encontrar 275 diferentes! É um lugar que clama por superlativos, onde a beleza da natureza e a força da água inspiram qualquer pessoa. Tudo aqui é muito intenso e grandioso. A única coisa bem pequena somos nós, seres humanos.

Pampa, bioma brasileiro

  • O Pampa é o bioma mais alterado do Brasil
Bioma que ocorre no RS tem 3,26% de seu território em parques e reservas e menos de 1% na categoria de unidades de conservação de proteção integral

Segundo menor bioma brasileiro, perdendo só para o Pantanal, o Pampa nunca chamou a atenção por sua beleza de árvores frondosas e flores de cores exuberantes. Sua paisagem predominantemente campestre, com campos abertos e muitas espécies de aves sobrevoando o bioma, promove uma sensação de vazio e solidão. Engana-se quem pensa que isso é sinal de escassez ou pobreza biológica. O bioma esconde em sua pequena área de 178,243 mil km2 uma grande biodiversidade: cerca de 3.000 espécies vegetais, mais de 100 espécies de mamíferos e quase 500 espécies de aves. A diversidade de gramíneas chama a atenção, com mais de 450 espécies. Entre as espécies florísticas, mais de 200 estão ameaçadas de extinção.

Planícies cobertas de gramíneas acarinhadas 
pelo vento do Sul do Brasil.

“A paisagem aberta é muito influenciada pelos ventos e pela luminosidade. Há uma grande diversidade de plantas herbáceas, incluindo gramíneas, compostas, leguminosas (ou Fabaceae, plantas da família do feijão) e ciperáceas, estas nos locais mais úmidos. Também ocorrem muitas plantas arbustivas e árvores de menor porte, como as vassouras, o espinilhos, as aroeiras e a coronilha”, diz Eduardo Vélez , biólogo e doutorando em Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Assim como o lagartinho do pampa, também são animais típicos da fauna local a ema, a codorna, o passarinho caminheiro, o veado-campeiro, várias espécies de tatus, o quero-quero, o tuco-tuco, a preá e o ratão do banhado, um roedor que ocorre em áreas úmidas e banhados. O clima é úmido o ano todo, com temperaturas mais baixas e chuvas distribuídas ao longo do ano.

Imagem do Pampa

Os animais sofrem o mesmo problema que sofrem os de outros biomas: têm cada vez menos áreas contínuas de campos. Assim, como tem fragmentação nas florestas, a mesma coisa vem ocorrendo no Pampa. Para espécies que precisam de grandes extensões para manter populações viáveis, isto é um grande problema. Também ocorre a redução no fluxo gênico e na capacidade de dispersão da flora e da fauna”, diz Eduardo.

O Pampa visto do alto

O Pampa já teve 64% de sua cobertura vegetal original destruída, sendo o segundo bioma mais alterado do Brasil, em termos percentuais. Para Eduardo, com algum esforço e muita consciência, os 36% nativos ainda podem ser salvos.

“Essa diversidade biológica do Pampa tem sofrido ameaças em função da conversão dos campos, ou seja, a eliminação do campo para a implantação de lavouras de agricultura e de silvicultura. O Pampa já perdeu muitas áreas de banhado para as lavouras de arroz. Nos últimos anos a soja também tem sido o grande vilão na perda da biodiversidade dos campos”, comenta o pesquisador.

Segundo o Mapeamento da Vegetação Nativa do Bioma Pampa, divulgado em 2007 pelo Ministério do Meio Ambiente, o bioma tinha 23,03% de campos, 5,38% de florestas e 12,91% de áreas de transição (savanas, campos e florestas). Os principais tipos de florestas do Pampa são a estacional decidual e a semidecidual, além de formações savânicas com espécies xerófilas (plantas adaptadas à aridez). O Pampa se estende pelo Uruguai e parte da Argentina, formando uma das regiões de campos temperados mais importante do planeta.


“A silvicultura pode ser uma nova fronteira de expansão sobre essas áreas remanescentes, porque os projetos são empresariais, com plantio em grandes extensões que podem representar a descaracterização da paisagem do Pampa”, teme Eduardo.

No Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), o Pampa é o bioma com menor representatividade, com apenas 3,2% de seu território transformados em áreas de conservação: “Por não ter grandes extensões de florestas, o Pampa gera menor sensibilidade social. As iniciativas de conservação estão abaixo da crítica. Temos menos de 1% de unidades de conservação de proteção integral. Isso é um problema sério e o principal desafio que temos hoje. Para manter os 36% que ainda estão conservados, é necessário criar novas unidades de conservação e, também , incorporar processos produtivos sustentáveis. Eu entendo que isto é plenamente possível através da pecuária sustentável”.

O Pampa é rico em gramíneas

Pouco praticada no Pampa, a experiência com a pecuária sustentável mostrou-se viável em estudos realizados por pesquisadores da Embrapa Pecuária Sul e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Um exemplo disto é a iniciativa da Apropampa, uma associação sem fins lucrativos formada por produtores rurais na região de Lavras do Sul e arredores que vem colocando em prática produção de carne com base em campos nativos bem conservados. Conservam-se as espécies nativas do campo e se consegue aumentar a produção de carne, já que o manejo do gado e dos campos permite esta harmonia.

“Entanto, estas iniciativas de manejo sustentável dos campos são ainda recentes. Ainda vivemos o paradoxo no Brasil de destruir a floresta na Amazônia para implantar pastagens com gramíneas exóticas, enquanto que, no Pampa, que tem as melhores pastagens naturais para a produção de carne, está se propondo plantar grandes extensões de árvores exóticas. Uma vez li um artigo que dizia que o Pampa era um bioma negligenciado, parecia que ninguém dava bola para ele. Hoje, isto parece estar mudando. Iniciativas como as da Apropampa e o Mapeamento do Bioma indicam que pode haver alguma esperança para este importante bioma brasileiro”, diz.


Especificações:

Os Campos sulinos foram assim nomeados pelo estudo de prioridades para a conservação e o uso sustentável da biodiversidade da Mata Atlântica e dos Campos Sulinos do MMA/Pronabio, elaborado pela CI, ISA, WWF, IBAMA. De maneira genérica, os campos da região Sul do Brasil são denominados como “pampa”, termo de origem indígena para “região plana”. Esta denominação, no entanto, corresponde somente a um dos tipos de campo, mais encontrado ao sul do Estado do Rio Grande do Sul, atingindo o Uruguai e a Argentina.  A região geomorfológica do planalto de Campanha, a maior extensão de campos do Rio Grande do Sul, é a porção mais avançada para oeste e para o sul do domínio morfoestrutural das bacias e coberturas sedimentares. Nas áreas de contato com o arenito botucatu, ocorrem os solos podzólicos vermelho-escuros, principalmente a sudoeste de Quaraí e a sul e sudeste de Alegrete, onde se constata o fenômeno da desertificação. São solos, em geral, de baixa fertilidade natural e bastante suscetíveis à erosão.

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